The Shift

Vibe Coding não te libertou

Há uma narrativa sedutora circulando no mercado. Daquelas que parecem óbvias quando você escuta pela primeira vez. O Vibe Coding, um jeito intuitivo, fluido e criativo de programar, libertou todo mundo. Agora qualquer pessoa cria produto. Sem depender de SaaS caro. Sem depender de desenvolvedor. Sem depender de ninguém.

E é exatamente por isso que ela é perigosa. Porque ela não é uma narrativa mentirosa, mas também não é verdadeira.

Vibe Coding é, sim, uma das maiores acelerações que a gente já viu. Reduz o tempo entre ideia e execução com uma velocidade que ainda não assimilamos. O que antes levava meses, hoje pode levar dias. Em alguns casos, horas. E, de fato, aproxima quem pensa de quem constrói. Tira fricção. Só que faz isso em um ponto muito específico: no começo.

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E é aí que está o erro. Porque o começo nunca foi o problema. A dificuldade sempre foi o que vem depois. Rodar um app na sua máquina, por exemplo, nunca foi difícil. Fazer isso funcionar em produção é outra história.

Mas o Vibe Coding cria uma ilusão muito conveniente. A sensação de que, porque funcionou uma vez, você domina o sistema. Não domina. Você só executou um prompt. E existe uma diferença enorme entre essas duas etapas.

Confiança é o que importa

O problema nunca foi a ferramenta, mas o tipo de confiança que ela gera. Quando alguém usa uma furadeira pela primeira vez e acerta o furo, essa pessoa não sai por aí fazendo instalação elétrica.

Mas no digital, por algum motivo, essa lógica foi ignorada. Agora, gerar código virou sinônimo de saber construir software. Não virou. Só ficou mais difícil perceber que você não sabe. E esse é o ponto mais perigoso de todos: antes, a limitação era visível, agora, a limitação continua existindo, mas disfarçada de capacidade.

Só parece que está pronto

Existe um momento em que toda empresa precisa decidir entre fazer ou comprar. Sempre foi assim. A diferença é que agora ficou muito mais fácil escolher “fazer” sem entender o custo real dessa escolha. Porque você consegue gerar algo que parece pronto antes mesmo de validar qualquer coisa.

E quando algo parece pronto, a tendência é tratar como pronto. Só que não está. Existem três camadas que continuam existindo com ou sem IA: segurança, interoperabilidade e escalabilidade. São exatamente as três que mais quebram produto.

Segurança não é um botão que você liga depois. Ela exige monitoramento constante, atualização e resposta. Se você não está fazendo, alguém está explorando isso.

Interoperabilidade não é detalhe técnico. Seu sistema vai depender de outros sistemas e cada conexão é uma nova forma de quebrar.

Escalabilidade não é uma evolução natural. É uma decisão de arquitetura que precisa ter sido tomada previamente. Um produto que funciona com dez usuários não prova nada. Só prova que você ainda não chegou ao problema.

Nada disso vem junto com o código gerado.

Risco invisível

E aqui entra um ponto de que ninguém gosta de falar. Quando você decide construir sem base técnica, você não está economizando. Você está abrindo crédito num banco que nem sabe que existe. O boleto vai chegar. Um SaaS pode ser caro, limitado, te prender. Mas ele tem time de segurança, tem SLA, tem histórico de falhas, tem gente que já resolveu os problemas antes de você.

Quando você abre mão disso sem saber exatamente o que está fazendo, não está ganhando liberdade. Você está trocando uma dependência visível por um risco invisível. E risco invisível é sempre mais perigoso.

Cibersegurança não tem emoção

Recentemente, um caso chamou a atenção. Um fundador teve seu sistema comprometido e explicou o ocorrido de um jeito curioso: “Inveja de programadores”. Alguém, supostamente incomodado com o sucesso dele, teria invadido o sistema.

Essa explicação diz muito, mas não sobre o ataque. Diz sobre o nível de exposição que ele nem sabia que tinha. Cibersegurança não tem emoção, não tem ego, não tem inveja. Ela tem código comprometido, credencial exposta e componente que ninguém atualizou.

Se o seu sistema usa algo comprometido, ele é vulnerável. Não importa se você é pequeno. Não importa se o código foi gerado por IA. O sistema não sabe quem você é. As perguntas que importam são: você sabe o que está rodando no seu próprio produto? Consegue monitorar em tempo real? Entende o impacto de uma falha global nas suas dependências? Responde a um incidente quando ele acontece?

Se as respostas para alguma dessas questões forem não, então o problema nunca foi inveja. Foi falta de estrutura.

Acelerando solução ou problema

Vibe Coding não substitui conhecimento, ele amplifica. Se você sabe o que está fazendo, você acelera. Se você não sabe, você só chega mais rápido ao problema.

Código continua sendo infraestrutura. E infraestrutura não perdoa ilusão.

Complexidade acumulada

Existe incômodo real com o modelo atual: SaaS caro, dependência de fornecedor e contrato que não acompanha o estágio do negócio. Tudo isso é legítimo.

Mas a resposta não pode ser sair de uma dependência que você enxerga para uma que você nem sabe que existe. Porque no fim, é isso que está acontecendo. O Vibe Coding não eliminou a complexidade, ele só tirou a camada que te lembrava dela.

E quando a complexidade deixa de ser visível, ela não desaparece. Ela acumula. Até o dia que quebra.

A liberdade que essas ferramentas trouxeram é real. Mas ela vem com um custo que quase ninguém está disposto a assumir conscientemente. Tanta gente acha que está construindo algo sólido quando, na verdade, só ainda não chegou na parte em que aquilo falha.