The Shift

Unicórnios latino-americanos miram oportunidades no Brasil

A colombiana Rappi é um dos unicórnios da América Latina que apostou no mercado brasileiro

A Kavak não é o único unicórnio latino-americano de olho no mercado brasileiro. O Brasil possui amplas oportunidades para as startups bilionárias da região. Uma das mais novas integrantes do grupo de empresas com valuations gigantes, a chilena NotCo já opera no país. A colombiana Rappi também é velha conhecida dos brasileiros. Na análise dos investidores, a entrada de unicórnios da América Latina no mercado nacional é um movimento natural.

“Se a empresa conseguiu se tornar um unicórnio em outros países, como México, ela tem que se validar no Brasil, que é uma das melhores portas de entrada do mercado americano, onde se ganha solidez e uma validação. Em sua maioria, as empresas latino-americanas já nascem posicionadas no Brasil”, afirma Ricardo Carvalho, fundador e diretor da G2 Capital e diretor executivo do fundo G3 Ventures.

A diretora de Venture Capital na Invest Tech, Viviane Radiuk, acredita que entrar no mercado brasileiro não é somente um passo para os unicórnios latino-americanos, como também uma necessidade. “Os unicórnios têm que atacar um grande mercado porque eles têm muito recurso para investir”, explica.

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Além do tamanho de mercado, o Brasil ainda possui uma grande penetração de internet e uma abertura para novas soluções tecnológicas, o que também é positivo para as empresas de tecnologia. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)” de 2019, do IBGE, 82,7% dos domicílios nacionais possuem acesso à internet. Radiuk indica ainda que o crescimento do Brasil, apesar das crises políticas e a desvalorização do real, ajudam a atrair as empresas para o país.

A força do mercado brasileiro na região é traduzida em números. Dos US$ 9,3 bilhões investidos na América Latina no primeiro semestre de 2021, US$ 4,6 bilhões (49,5%) foram para startups brasileiras, segundo o State Of Venture Q2’21 Report“, do CBInsights. Também são do Brasil quatro dos seis maiores deals que ocorreram na América Latina na primeira metade do ano — inclusive, o maior deles, a compra de 40% do C6 Brank pelo JP Morgan, no valor de US$ 2,021 bilhões.

De acordo com a última atualização do relatório do CBInsights, dos 728 unicórnios mundiais, 17 eram latino-americanos (12 no Brasil, 3 no México e 2 na Colômbia). Desde lá, a região ganhou novos unicórnios e ultrapassou a marca das 20 startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Algumas adições da lista são: Mercado Bitcoin, NotCo e Mural.

Na visão de Carvalho, o Brasil é um mercado de testes para as empresas. Quem se der bem por aqui consegue expandir com mais facilidade para locais como a África e alguns países da Europa. Isso vale para empresas latinas e de outras regiões. “No mercado latino-americano, que tem grandes empresas de tecnologia, as startups sempre vão seguir primeiro para o Brasil e depois para outros países”, afirma Carvalho.

O roadmap da Kavak segue a linha se validar no Brasil para, então, se lançar ao mundo. A expectativa é que as operações no país sejam as maiores da empresa, que é mexicana e também atua na Argentina.

“O Brasil é o maior mercado da América Latina, qualquer empreendedor que tem ambição na região e globalmente tem que estar no país. Desde o começo da Kavak, o Brasil era parte dos nossos planos porque respeitamos muito o país e queríamos garantir que estávamos construindo o negócio com as bases sólidas. Buscamos entender muito bem o que estávamos construindo, com captação de capital, para chegar no mercado brasileiro com força para conquistá-lo”, afirma Roger Laughlin, um dos fundadores e CEO da Kavak Brasil. Os outros motivos para se lançar no país foram a disponibilidade de talentos para formar times e o tamanho do mercado nacional.

Outro atrativo é que o mercado nacional tem muitas dores para serem resolvidas, o que significa muitas oportunidades para as empresas latino-americanas que ingressarem no país. A Kavak sabe disso e quer transformar o segmento de carros usados e seminovos: “No Brasil, ocorrem mais de 10 milhões de transações de veículos por ano e ainda existe uma baixa penetração de carros por brasileiro. Tem um espaço gigante para atendermos vários brasileiros que estão passando por essa experiência de compra e venda que, em muitos casos, é ineficiente”.

Não são apenas os unicórnios latino-americanos que buscam o mercado nacional. Na semana passada, a Edtech BYJU’s, uma das startups mais valiosas da Índia, chegou ao Brasil. O managing partner do Distrito, Gustavo Gierun, afirma que a atração do país é reflexo do rápido amadurecimento do setores de inovação e tecnologia, o que coloca o Brasil no mapa global de criação de empresas de tecnologia.

“O Brasil é muito interessante para as áreas de tecnologia, temos tido a adoção cada vez mais rápida de mobile, temos problemas estruturais que podem ser resolvidos por meio de tecnologia”, explica Gierun. “Quando os players que têm acesso a capital, tecnologia desenvolvida e já comprovaram a sua tese em outros lugares do mundo olham para o mercado brasileiro parece ser muito óbvio buscar uma incursão para ter uma participação maior nesse negócio. É natural que empresas que já tenham um modelo consolidado tentem replicar os seus modelos no mercado brasileiro”.

Para ele, o mercado brasileiro não deve perder a atratividade para investidores e empreendedores tão cedo. A estimativa é que o país tenha mais uma década de crescimento intenso desse ecossistema. “O movimento de digitalização da economia e transformação digital das empresas está só começando. Enquanto as startups tiverem acesso a capital, fundadores com capacidade técnica e experiência de mercado e a gente tiver problemas estruturais gigantescos, o mercado vai continuar voando. Não consigo imaginar uma desaceleração no curto prazo”, afirma.

Grandes fundos de investimento

Os grandes fundos também estão visando os mercados latino-americano. Um deles é o Sequoia Capital, tradicional no Vale do Silício, que investiu no Nubank e na Rappi. A instituição renovou seu interesse pela região e já participou de aportes nas fintechs chilena Quansa e argentina Pomelo. Em post no medium de julho de 2021 sobre o ecossistema da América Latina, os sócios do fundo de venture capital, Douglas Leone e Sonya Huang, afirmam ver oportunidades de criar empresas lendárias na região.

“Fomos surpreendidos pela qualidade dos fundadores da onda atual. Eles nos surpreenderam ao terem ambição em grande escala, pensamento estratégico, uma forte aderência em relação às métricas, excelência operacional, energia contagiante e paixão pelo que estão construindo. Estimulados pelo sucesso de empresas como Nubank e Rappi, esses fundadores estão pensando grande, sem medo de tentar o impossível. E, depois de ter visto os manuais para o sucesso de startups, eles estão contratando e executando sem medo para transformar seus sonhos em realidade”, analisam os sócios do Sequoia.

Os investidores apontam que o ecossistema latino-americano tem criado soluções moldadas para os problemas locais, o que não acontecia no passado. Os profissionais também estão mais abertos a trabalhar em startups. Esses fatores somados ao grande mercado digital da América Latina e as dores da região, fazem dos países latinos o cenário ideal para a economia digital afetar a economia real. O fundo aponta oportunidades nos seguintes setores:

A gigante japonesa SoftBank também aposta na América Latina. Em 2019, foi lançado o Latin America Fund, de US$ 5 bilhões, que investiu US$ 1 bilhão na Rappi e US$ 300 milhões na brasileira Gympass. Há a expectativa do conglomerado dobrar a aposta na região e trazer mais US$ 5 bilhões em investimento — em um novo fundo ou em uma ampliação do já existente.

Outra gestora de venture capital importante para a região é o Kaszek Ventures, da Argentina. Em maio, a companhia captou US$ 1 bilhão para investir em startups latino-americanas por meio de dois novos fundos de US$ 475 milhões e US$ 525 milhões, o Kaszek Ventures V e o Opportunity II, respectivamente.

O Kaszek Ventures V é focado em startups iniciantes e é o maior do tipo já levantado na América Latina. Já o Opportunity II visa investimentos em companhias mais maduras dentro do portfólio da gestora.

Radiuk vê esse movimento dos grandes fundos com bons olhos. “Eu acho que é super importante essas instituições estarem vindo para a América Latina porque é uma questão de credibilidade. Se eles estão nos mercados mais desenvolvidos e vêm para cá, isso atrai o olhar dos investidores menores que ainda não estão olhando para a região. Quando você começa a ter esse movimento de investimento de fora vindo cada vez mais e com nomes fortes é muito importante e para o mercado de venture capital isso está sendo incrível”, afirma.

Desafios

A entrada em um novo país traz desafios e Gierun destaca que já viu empresas globais terem dificuldade no Brasil por questões como regulação e política. Apesar de existirem entraves, está mais fácil adentrar o mercado brasileiro, especialmente para as startups dos vizinhos latinos. “São mercados muito próximos, então é muito difícil ver as empresas tendo muita dúvida com relação à legislação, por exemplo”, afirma Carvalho.

Apesar de concordar que a vinda ao Brasil está mais fácil, a diretora de Venture Capital na Invest Tech vê que alguns desafios ainda prevalecem, como as barreiras linguística e cultural. “Globalmente, os desafios têm sido cada vez menores porque a conexão da internet reduz as barreiras culturais e de língua. As culturas do países também se assemelham. Está mais fácil entender o que está acontecendo em outros países”, diz Radiuk.

O fato dos investidores na região apostarem em empresas de vários países também facilita o processo de implantação no Brasil porque as startups entram em um mercado que já é conhecido por seus apoiadores. Além disso, já existem empresas especializadas em apoiar o processo de internacionalização de companhias.