The Shift

Vacinas de mRNA, lítio direto e criptografia quântica: as 10 tecnologias emergentes de 2026

Vacinas de mRNA, lítio direto e criptografia quântica-segura: as apostas do WEF para 2026 (Crédito: Freepik)

A edição 2026 do relatório “Top 10 Emerging Technologies” do Fórum Econômico Mundial (WEF) chega em um momento de profunda incerteza, em que os sistemas se tornaram mais frágeis e a resiliência virou prioridade entre setores e regiões. Olhando para as dez tecnologias como um conjunto, três tendências se destacam. Muitas estão se tornando mais pessoais, desenhadas em torno de um único paciente ou contexto; muitas estão ficando mais distribuídas, produzindo alimento, energia e materiais críticos mais perto de onde são necessários; e muitas fazem mais com menos, como gerar resfriamento sem energia, proteína sem rebanhos e química sem resíduos persistentes.

Olhando para as dez tecnologias em conjunto, alguns padrões sugerem para onde se movem as transformações mais amplas. O mais visível diz respeito à própria forma de fazer ciência: a descoberta está migrando do laboratório para o modelo. A IA ajuda a determinar se um candidato a medicamento se ligará ao alvo antes de ser sintetizado, a identificar as mutações do tumor de um paciente antes de desenhar o tratamento e a mapear rotas biológicas antes de carregar um tanque de fermentação. A fronteira do que vale a pena tentar está se expandindo — para doenças antes consideradas “intratáveis” e alvos moleculares complexos demais para a computação clássica.

A seguir listamos as tecnologias emergentes.

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1.Energia “tudo-para-a-rede” (everything-to-grid)

A ideia central é transformar cada edifício, veículo e dispositivo em um ponto capaz de armazenar energia, devolvê-la e ajudar a equilibrar oferta e demanda em tempo real, convertendo a rede elétrica em um conjunto de nós inteligentes. A mudança mais consequente acontece dentro da própria bateria. Por duas décadas, as baterias de íon-lítio dependeram de cobalto e níquel, metais concentrados em poucos países e sujeitos a volatilidade de preço e controvérsias éticas; novas químicas baseadas em materiais mais disponíveis, como lítio e sódio, quebram essa dependência, e a maioria delas custa menos. Em 2025, as baterias de íon-lítio superaram pela primeira vez as baterias à base de níquel nas implantações globais de veículos elétricos.

A Austrália oferece o retrato mais claro disso em escala: no segundo semestre de 2025, as residências australianas adicionaram mais de 180.000 baterias domésticas, e programas estaduais e nacionais passaram a pagar para conectá-las a redes de software capazes de mobilizar coletivamente a energia armazenada, estabilizando a rede quando a demanda dispara. Edifícios, veículos e dispositivos deixam de ser apenas consumidores e se tornam recursos ativos. Para efeito de contexto, dados externos ao relatório mostram a velocidade dessa transição: segundo a Agência Internacional de Energia, o mundo instalou 108 GW de nova capacidade de armazenamento em baterias em 2025, 40% a mais que em 2024, com cerca de 80% em escala de concessionária. O relatório alerta, porém, que a degradação das baterias, modelos de receita incertos e riscos de garantia podem frear a adoção, enquanto a cibersegurança se torna cada vez mais crítica à medida que redes elétricas, comunicações e plataformas em nuvem se entrelaçam.

2.Extração direta de lítio (DLE)

No deserto do Atacama, no Chile, a salmoura rica em lítio é bombeada para grandes lagoas de evaporação; o processo pode levar até dois anos, exige muita água e só funciona em condições geológicas específicas. A extração direta de lítio estreita essa lacuna: em vez de espalhar a salmoura e esperar a evaporação, sistemas de engenharia processam o mesmo líquido diretamente, retirando o lítio em horas e devolvendo a água ao subsolo. Onde a evaporação captura cerca de metade do lítio, a extração direta pode chegar a 80–95%, com produto mais próximo do grau-bateria.

Na região da Puna, na Argentina, a planta Centenário-Ratones, da Eramet, é a primeira operação industrial de lítio a funcionar sem lagoas de evaporação. Com a primeira entrega de produção em 2024, foi projetada para uma capacidade anual de 24.000 toneladas e opera a 4.000 metros de altitude. No Salton Sea, na Califórnia, a planta geotérmica da EnergySource Minerals gera eletricidade a partir da salmoura superaquecida e extrai lítio antes de devolvê-la ao subsolo; o projeto recebeu um empréstimo federal de US$ 1,4 bilhão em fevereiro de 2026 para alcançar escala comercial plena. O relatório observa que o lítio perdeu mais de 80% de seu valor desde 2022, o que torna o modelo de “hub integrado” — extração e refino no mesmo local — uma necessidade econômica, e não apenas uma preferência. Incentivos dos EUA criam uma janela limitada, provavelmente até por volta de 2028, para que empresas se beneficiem do apoio a cadeias domésticas de minerais críticos.

3.Materiais de resfriamento radiativo passivo

As ilhas de calor urbanas nos Estados Unidos já são, em média, de 0,5 a 4,0 °C mais quentes que as áreas rurais vizinhas durante o dia. Os materiais de resfriamento radiativo passivo são projetados para emitir calor em uma faixa estreita do infravermelho que a atmosfera deixa escapar para o espaço profundo, e ao mesmo tempo dispersam mais de 95% da luz solar incidente antes que ela vire calor. Uma superfície que faz as duas coisas perde mais energia do que ganha e esfria abaixo da temperatura do ar — sem consumir eletricidade. Essas propriedades podem ser incorporadas a tintas, telhas, películas de janela e tecidos pesados.

O Código de Energia da Califórnia já exige materiais de telhado “frio” na maioria dos edifícios comerciais e altos, e a política de Carbono Duplo da China incorporou a tecnologia a normas nacionais de construção verde. As tintas de resfriamento radiativo custam cerca de US$ 6 por metro quadrado, e a 3M e a SkyCool relataram economia de energia de 15–20% em supermercados e varejo. No Reino Unido, a AssetCool desenvolveu um revestimento para cabos de energia que pode transportar cerca de 30% mais eletricidade pela mesma infraestrutura; a SRI International criou uma tinta autorresfriante que reduz temperaturas de superfície em até 15 °C abaixo do ambiente; e a SPACECOOL, ramo da Osaka Gas, produziu uma película que reflete 95% da luz solar. Em climas quentes e secos, a economia de energia pode chegar a 42%, e as temperaturas internas podem cair de 5 a 10 °C.

4.Destruição de PFAS

Os PFAS (substâncias per- e polifluoroalquílicas) foram engenhados para resistir a calor, água e degradação química — e às vezes cumprem bem demais essa função. Já foram detectados na neve do Ártico, na água da chuva em todos os continentes e no sangue de quase todas as pessoas testadas. Destruí-los significa romper a ligação carbono-flúor, uma das mais fortes da química orgânica. Vários métodos já demonstraram essa capacidade: água em estado supercrítico, eletrodos especializados e fotocatálise por luz UV. Os sistemas mais capazes combinam filtragem e destruição em sequência, concentrando os PFAS antes de quebrá-los.

A regulação acelerou a transição: a União Europeia adotou limites legais para PFAS na água potável em 2020, e reguladores dos EUA, Japão e Austrália seguiram na mesma direção. Em Grand Rapids, Michigan, uma instalação destrói continuamente PFAS de chorume de aterro desde 2023; a Daikin Industries concluiu um teste de campo em larga escala processando mais de 170.000 galões de seu próprio efluente industrial. Para resíduos de alta concentração, alguns sistemas se aproximam de eficiências de destruição de 99%. O custo continua relevante: incinerar esses resíduos custa de US$ 1.000 a 5.000 por tonelada, contra cerca de US$ 50 por tonelada para resíduo sólido urbano comum. A dimensão do problema é enorme — nos Estados Unidos, estimativas da American Water Works Association apontam custos de US$ 3,2 a 5,7 bilhões por ano só para tratar a água potável de acordo com as novas regras da EPA, e estimativas preliminares colocam o custo total de remoção em torno de US$ 400 bilhões.

5.Fermentação de precisão

A fermentação de precisão identifica os genes responsáveis por uma molécula-alvo e os transfere para um hospedeiro microbiano — em geral levedura, bactéria ou fungo — que então lê essas instruções e produz a molécula como parte de sua atividade celular normal. O que sai é quimicamente idêntico ao que o organismo original produziria. A inteligência artificial permite modelar as rotas biológicas mais eficientes antes de qualquer experimento, comprimindo o desenho de moléculas de anos para meses, e as estruturas regulatórias dos EUA e da União Europeia já amadureceram o suficiente para dar confiança a fabricantes e investidores.

A Perfect Day já fornece proteína de soro derivada de fermentação a várias marcas de alimentos dos EUA e expande a produção para a Índia. Em 2024, a Nestlé introduziu um isolado de proteína de soro derivado de fermentação em sua linha de nutrição funcional, e a EVERY iniciou a distribuição nacional de suas proteínas de ovo no Walmart. A Fonterra, maior exportadora de laticínios do mundo, investiu na Vivici, startup que produz beta-lactoglobulina usando 87% menos água do que os produtos derivados de gado. O alimento concentra as maiores apostas comerciais, mas o mesmo processo se aplica a peptídeos cosméticos, compostos farmacêuticos e blocos químicos hoje derivados de combustíveis fósseis. O relatório lembra que a agricultura sustenta mais de um bilhão de meios de subsistência no mundo, e que o maior desafio dessa tecnologia é o deslocamento desses empregos. Para dimensionar o mercado, projeções externas estimam o setor de fermentação de precisão entre cerca de US$ 4,7 e 5,8 bilhões em 2025, com forte crescimento esperado na próxima década.

6.Entrega de medicamentos por exossomos

A medicina molecular tem um “problema de última milha”: muitas terapias altamente direcionadas funcionam no laboratório, mas se degradam na corrente sanguínea antes de chegar ao destino. Os exossomos são pacotes envoltos em membrana que as células produzem continuamente para entregar proteínas, RNA e instruções genéticas umas às outras — o “sistema de correio interno” do corpo. Por carregarem assinaturas moleculares que o organismo reconhece como próprias, conseguem sobreviver à corrente sanguínea e atravessar barreiras como a que protege o cérebro. Sistemas automatizados, biorreatores tridimensionais e novas técnicas de purificação aumentaram os rendimentos em até cinquenta vezes, tornando viável pela primeira vez a produção em escala clínica.

Desde 2022, mais de 200 ensaios clínicos foram lançados em câncer, doenças neurológicas e efeitos de longo prazo da COVID-19. Em um ensaio de fase 1 no MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, pacientes com câncer de pâncreas sem opções de tratamento apresentaram estabilização da doença com exossomos engenhados para atingir uma mutação que havia derrotado todos os medicamentos anteriores. Em 2025, pesquisadores demonstraram exossomos carregando ferramentas de edição genética através da barreira hematoencefálica, sem desencadear resposta imune. Uma colaboração de US$ 1,5 bilhão entre a Eli Lilly e a Evox Therapeutics sinaliza a atenção da indústria. Ainda assim, até o fim de 2025 nenhuma terapia baseada em exossomos havia sido aprovada pela FDA: a fabricação continua sendo um gargalo, e os padrões de controle de qualidade — precisão de alvo, distribuição, dosagem e durabilidade — ainda precisam se desenvolver.

7.Vacinas personalizadas de mRNA contra o câncer

Em vez de atacar o câncer diretamente, essas vacinas treinam o sistema imunológico a reconhecê-lo. Quando o paciente é diagnosticado, médicos extraem células do tumor e sequenciam suas mutações para identificar os antígenos que marcam aquelas células como estranhas; uma vacina de mRNA é então sintetizada em torno desse perfil específico. A pandemia de COVID-19 transformou o mRNA de plataforma de pesquisa em infraestrutura global de fabricação e regulação, comprimindo anos de desenvolvimento em meses, com apoio de um investimento público global estimado em US$ 79,4 bilhões. Em março de 2026, o Instituto Nacional do Câncer dos EUA anunciou uma parceria público-privada de US$ 200 milhões para financiar novos ensaios.

Os resultados clínicos chamam atenção. No câncer de pâncreas, cuja taxa global de sobrevivência em cinco anos gira em torno de 13%, um ensaio no Memorial Sloan Kettering mostrou que, ao longo de um estudo de seis anos, a taxa de sobrevivência entre pacientes cujo sistema imunológico respondeu à terapia foi de 90%. Em melanoma de alto risco, uma vacina personalizada combinada ao pembrolizumabe reduziu o risco de recidiva ou morte em 49% em comparação à imunoterapia isolada — resultado forte o bastante para avançar à fase 3. O principal risco é o acesso: tratamentos iniciais que ultrapassam US$ 100.000 por paciente poderiam limitar essas vacinas a sistemas de saúde bem financiados, ampliando lacunas globais nos resultados oncológicos.

8.Simulação quântica para descoberta de medicamentos

Uma única proteína pode conter milhares de átomos, cada um interagindo com seus vizinhos de formas que determinam se um medicamento se ligará ao alvo. Por décadas, prever essas interações exigiu simplificações, o que costuma levar a erros: cerca de nove em cada dez candidatos a medicamento que entram em ensaios clínicos fracassam. A simulação quântica modela o comportamento molecular diretamente, usando os mesmos princípios físicos que governam como átomos e moléculas de fato interagem. Avanços na correção de erros tornaram os cálculos mais confiáveis, e arquiteturas híbridas que combinam processadores quânticos e clássicos tornaram a tecnologia compatível com os fluxos de trabalho farmacêuticos existentes.

O mercado de descoberta quântica de medicamentos praticamente dobrou de valor nos últimos cinco anos. Em 2025, IBM e Moderna concluíram a maior simulação de dobramento de proteínas e de mRNA já feita em um computador quântico; na França, as startups Pasqal e Qubit Pharmaceuticals usam computadores quânticos de átomos neutros para descoberta de pequenas moléculas, com apoio do Wellcome Trust. O segmento que mais cresce dentro da descoberta quântica é o de doenças raras e órfãs — condições que a economia farmacêutica tradicional muitas vezes tratou como comercialmente marginais. Se a simulação reduzir a incerteza, ensaios de estágio avançado poderiam se tornar menores e mais focados, envolvendo centenas de pacientes em vez de milhares. Os reguladores, porém, precisarão de padrões compartilhados de validação antes que a simulação seja aceita como evidência em decisões de aprovação.

9.Modelos de mundo (world models)

Um bebê de nove meses que nunca ouviu a palavra “gravidade” já sabe que objetos caem, porque os derrubou, viu cair e sentiu o peso deixar sua mão. Os grandes modelos de linguagem, ao contrário, aprendem com descrições humanas do mundo, não com a experiência direta da realidade física. Os modelos de mundo são projetados para aprender como o mundo se comporta a partir de dados de múltiplos canais sensoriais — vídeo, sensores de profundidade, leituras de pressão, captura de movimento — comprimidos em um único espaço de representação compartilhado. A peça final do quebra-cabeça foi a Arquitetura Preditiva de Embedding Conjunto (JEPA), proposta por Yann LeCun em 2022, que faz o modelo aprender a estrutura por trás do que acontece em seguida, e não cada detalhe visual.

As primeiras plataformas já estão nas mãos de desenvolvedores. A plataforma Cosmos, da NVIDIA, lançada em 2025, foi treinada com 20 milhões de horas de dados do mundo físico abrangendo robótica, ambientes industriais e direção; robôs treinados nela generalizam para situações que nunca encontraram, porque raciocinam a partir de um modelo interno de como as coisas se comportam. Em 2026, pesquisadores da Stanford Doerr School of Sustainability mostraram que incorporar abordagens de modelos de mundo à simulação climática pode fechar a lacuna de resolução que sempre limitou a previsão de tempestades e nuvens. O relatório alerta para um risco específico: esses modelos podem não apenas reproduzir vieses dos dados, mas também construir suposições falhas sobre como o mundo funciona — um modelo pode ser internamente consistente e ainda assim estar errado, exigindo testes de estresse rigorosos e auditorias que rastreiem desvios e mudanças de premissas.

10.Criptografia baseada em reticulados (lattice-based)

Em algum servidor desconhecido, um arquivo de tráfego de internet criptografado está crescendo. Os dados não podem ser lidos hoje, mas quem os coleta espera o momento em que poderão — uma estratégia conhecida como “colher agora, decifrar depois”. Computadores quânticos suficientemente poderosos poderiam desfazer os problemas matemáticos que sustentam a maior parte da criptografia em uso. A criptografia baseada em reticulados funciona de outro modo: esconde os dados em estruturas geométricas complexas, com ruído deliberadamente adicionado, de forma que a solução correta seja indistinguível das muitas erradas, mesmo para máquinas quânticas. As mesmas propriedades permitem a criptografia totalmente homomórfica, que executa cálculos diretamente sobre dados criptografados — em 2024, pesquisadores do Asan Medical Center usaram essa abordagem para treinar modelos de IA com mais de 300.000 registros de pacientes de três hospitais, sem que os dados brutos saíssem de seus servidores.

O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) passou dois anos avaliando abordagens antes de finalizar seus padrões em 2024, escolhendo algoritmos baseados em reticulados como fundação primária; a ISO e o ETSI alinharam-se atrás da mesma base. A União Europeia designou 2026 como o ano em que sistemas públicos devem iniciar a migração quântica-segura; a NSA exigiu algoritmos resistentes a quântica em todos os novos sistemas de segurança nacional até janeiro de 2027; e o Google se comprometeu a concluir sua transição até 2029. A SWIFT, rede que conecta mais de 11.000 instituições em 200 países, participa ativamente do planejamento. Com violações de dados custando até US$ 4,44 milhões, protocolos recentes baseados em reticulados já reduziram tempos de verificação de 90 segundos para 20 milissegundos. (Como referência, os padrões finalizados pelo NIST em agosto de 2024 — FIPS 203/204/205 — formalizaram os algoritmos de reticulados ML-KEM e ML-DSA, com transição completa recomendada até 2035.)