The Shift

IA Aplicada, fintechs e deeptech: o que deve guiar o próximo ciclo de VC na América Latina

Com menos euforia e mais disciplina financeira, investidores buscam oportunidades em IA aplicada, fintechs e deeptech, enquanto a escassez de exits continua sendo o principal desafio do ecossistema (Crédito: Freepik)

O mercado de venture capital na América Latina vive um momento marcado por otimismo moderado, maior disciplina financeira e novas prioridades tecnológicas. Ao mesmo tempo em que investidores reconhecem desafios estruturais, principalmente a escassez de saídas e a instabilidade política, a maior parte planeja ampliar o ritmo de investimento nos próximos meses, segundo levantamento da Cuantico e Startuplinks.

Os dados do relatório “Latin America Venture Capital Report 2026” mostram que existe um enorme potencial de digitalização de setores tradicionais da economia latino-americana. Agricultura, Mineração, Construção, Logística e Varejo, entre outros setores, ainda apresentam baixa penetração tecnológica. Isso cria oportunidades para startups que aplicam tecnologia para melhorar produtividade, eficiência e transparência nesses segmentos. Em outras palavras, ainda existe um oceano azul a ser explorado.

Segundo o LatAm VC Confidence Index, um barômetro criado pelo estudo para medir o sentimento do mercado:

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Isso indica que, embora o ambiente esteja longe da euforia, muitos fundos ainda possuem capital disponível, o chamado “dry powder”, e procuram oportunidades em um ambiente de valuations mais razoáveis. A leitura geral é de um mercado em transição, ainda sem sinais claros de retomada acelerada.

Quando questionados sobre o ambiente de captação de fundos na região, em comparação com 12 meses atrás

O capital está mais seletivo e as rodadas demoram mais

Um efeito visível do novo cenário é o aumento do tempo necessário para fechar rodadas de investimento. A pesquisa, que ouviu 126 investidores e 49 fundadores do ecossistema de venture capital latino-americano, aponta a ideia de um mercado mais disciplinado, no qual métricas de eficiência e sustentabilidade ganharam importância.

Entre os fundadores entrevistados:

Além disso, o interesse dos investidores é percebido como mais contido:

O maior problema do ecossistema está na falta de liquidez. Entre os principais riscos apontados pelos investidores para 2026 estão:

  1. Falta de oportunidades de exit – 73,8%
  2. Instabilidade política – 57,1%
  3. Retração de LPs (investidores institucionais) – 44,4%
  4. Baixa participação de instituições locais – 34,9%

Essa preocupação é compartilhada pelos fundadores de startups. Entre eles, 49% também apontam a escassez de saídas como o principal risco do ecossistema. A dificuldade de gerar liquidez, seja por IPOs ou aquisições (M&A), tem impacto direto no ciclo do capital de risco. Sem saídas, investidores têm menos recursos para reinvestir capital em novas empresas. Por isso, o relatório aponta que a maturidade do mercado dependerá da criação de mais eventos de liquidez, incluindo vendas estratégicas e operações secundárias.

 

Brasil segue como principal polo de investimento (e as fintechs também)

Mesmo com a diversificação crescente do ecossistema latino-americano, o Brasil continua sendo o principal mercado da região. Em 2025, os dados mostram

O protagonismo brasileiro reflete tanto o tamanho do mercado quanto a maturidade do ecossistema. O país representa quase metade do PIB da América Latina, possui um dos sistemas financeiros mais sofisticados do Sul Global e abriga um mercado consumidor de mais de 215 milhões de pessoas, fatores frequentemente citados por investidores como razões para apostar na região.

Olhando para a análise dos setores, as fintechs seguem sendo o principal destino do capital de risco na região. Em 2025, 29% das rodadas foram em fintechs. O setor concentrou 61% do capital investido. Outros segmentos relevantes incluem SaaS, Healthtech, Foodtech, Logística e Energia.

Esse domínio das fintechs reflete uma característica da América Latina: a enorme lacuna histórica em infraestrutura financeira, que abre espaço para inovação. Mesmo em países com sistemas financeiros mais sofisticados, como o Brasil, ainda existem lacunas que continuam abrindo espaço para inovação. Ao mesmo tempo, o relatório destaca que as fintechs estão entrando em uma nova fase.

Em vez de aplicativos voltados diretamente ao consumidor, o foco agora se desloca para infraestrutura financeira embutida, como:

 

O próximo ciclo será liderado por IA Aplicada

Se as fintechs ainda dominam o presente, a Inteligência Artificial aparece como a tecnologia mais promissora para o futuro. Entre os especialistas consultados no relatório, 13 de 20 apontaram a IA Aplicada como a principal tendência para os próximos anos. Mas a lógica na América Latina será diferente da observada nos Estados Unidos.

Em vez de criar modelos fundacionais, a oportunidade está na camada de aplicação da IA, especialmente em setores tradicionais. As principais oportunidades incluem:

Na prática, isso significa usar IA para resolver problemas da economia real. Um exemplo citado no estudo envolve agentes de IA capazes de transformar mensagens de WhatsApp, notas de voz e documentos em orçamentos, faturas e registros financeiros automatizados, sem exigir mudanças radicais na forma como pequenas empresas trabalham.

 

Deeptech entra no radar dos investidores

Outra tendência apontada pelo relatório é o avanço do deeptech, especialmente em áreas ligadas às vantagens naturais da região. Entre os setores citados estão:

Segundo especialistas entrevistados, o próximo ciclo de inovação pode não ser “software-first”, mas sim tecnologia ancorada em ativos reais, como recursos naturais, infraestrutura energética e biodiversidade.

Nesse contexto, a América Latina apresenta vantagens únicas. A região possui:

Esses fatores podem transformar o deeptech em um novo motor de inovação regional.