The Shift

Startups nativas em IA viram unicórnios em metade do tempo

Capital recorde, velocidade recorde: a nova era das startups de IA (Crédito: Freepik)

De um lado, os números do capital: um 1° semestre recorde, dominado por poucas gigantes de IA. De outro, os números da velocidade: empresas nativas em IA que atingem em três anos e meio o que o mercado historicamente levava sete para alcançar. Os dados, que vêm de estudos do Crunchbase e da AWS em parceria com a Strand Partners, sugerem que a indústria de tecnologia está passando por uma reorganização mais profunda do que o simples entusiasmo em torno de modelos de linguagem. E reforçam o princípio de que a Inteligência Artificial (IA) se tornou infraestrutura sobre a qual o mercado de startups está sendo reconstruído.

Segundo dados divulgados pelo Crunchbase no dia 2 de julho, o investimento global em startups somou US$ 510 bilhões no 1° semestre, um volume que já supera os US$ 440 bilhões aplicados em todo o ano de 2025 e que representa o maior total já registrado para um período de seis meses, superando a marca anterior de US$ 375 bilhões, estabelecida no 2° semestre de 2021, auge do último grande ciclo de otimismo do venture capital. O primeiro trimestre de 2026 respondeu por US$ 305 bilhões, puxado por rodadas colossais como os US$ 122 bilhões captados pela OpenAI, os US$ 30 bilhões da Anthropic, os US$ 20 bilhões da xAI e os US$ 16 bilhões da Waymo, quatro das cinco maiores rodadas de capital de risco já registradas. O segundo trimestre somou US$ 205 bilhões investidos em mais de 5 mil startups ao redor do mundo, configurando o segundo maior trimestre da história, atrás apenas do trimestre imediatamente anterior.

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Mas o dado que mais chama atenção nesse relatório é o grau de concentração desse capital. Somadas, OpenAI e Anthropic captaram US$ 217 bilhões no 1° semestre, 43% de todo o investimento em startups no mundo no período. Só a Anthropic levantou US$ 65 bilhões no segundo trimestre, o equivalente a quase um terço de tudo o que foi investido globalmente em startups naqueles três meses. Com essa rodada, a empresa ultrapassou a OpenAI e se tornou a companhia privada mais valiosa do mundo no ranking de unicórnios do Crunchbase, num movimento que ocorreu justamente quando a SpaceX deixou de ser uma empresa privada para abrir capital.

Essa concentração também aparece na distribuição geográfica. Os Estados Unidos responderam por dois terços do capital investido no segundo trimestre, uma proporção menor que os 83% registrados no primeiro trimestre (quando a rodada bilionária da OpenAI distorceu muito os números a favor do país), mas ainda esmagadoramente dominante. No primeiro trimestre, os EUA haviam captado sozinhos US$ 250 bilhões, contra US$ 16,1 bilhões da China e US$ 7,4 bilhões do Reino Unido, o segundo e o terceiro colocados.

O papel da Inteligência Artificial como motor deste ciclo é evidente nos números setoriais, com mais de 70% de todo o capital de risco investido globalmente no segundo trimestre direcionado a empresas focadas em IA. Trata-se de uma fatia que já havia sido de pouco menos de 50% um ano antes e que, no primeiro trimestre de 2026, chegou a 80% (US$ 242 bilhões).

O retorno das saídas: IPOs e fusões em ritmo recorde

Depois de um mercado de saídas praticamente paralisado desde 2022, o segundo trimestre de 2026 marcou a volta em força de IPOs e aquisições, no que o Crunchbase descreve como o período mais forte para saídas de empresas apoiadas por venture capital desde o boom de 2021. O evento de destaque foi a estreia da SpaceX na bolsa, em 12 de junho: a empresa de Elon Musk captou US$ 75 bilhões avaliada em US$ 1,77 trilhão, tornando-se o maior IPO de uma empresa apoiada por capital de risco da história. Segundo a CNBC, as ações foram precificadas a US$ 135 e abriram a US$ 160,95, alta de 19,2% no primeiro pregão, chegando a ser negociadas a até US$ 225,64 nas semanas seguintes (ainda que registrassem uma queda e acomodação dias depois). Menos de uma semana depois de estrear na bolsa, a SpaceX anunciou a aquisição da Anysphere, empresa por trás da ferramenta de programação com IA Cursor, por US$ 60 bilhões, a maior aquisição de uma startup de capital de risco já registrada, segundo o Crunchbase.

No total, 32 empresas apoiadas por venture capital abriram capital com valorização acima de US$ 1 bilhão no trimestre , entre elas a fabricante de chips de inferência Cerebras Systems e a empresa de computação quântica Quantinuum, os dois maiores IPOs depois da SpaceX. No mercado de fusões e aquisições (M&A), 24 empresas foram adquiridas por valores iguais ou superiores a US$ 1 bilhão, somando US$ 113 bilhões, o maior volume trimestral já registrado pela Crunchbase para esse tipo de transação.

O relatório cita os possíveis IPOs da OpenAI e da Anthropic, que deram entrada na papelada, mas não divulgaram datas. De acordo com a Bloomberg, a Anthropic avalia uma estreia em bolsa já em outubro de 2026. E o que o mercado comenta a boca miúda é que talvez a OpenAI espere até 2027 para não se prejudicar pelo movimento da concorrente. Se a janela de IPOs continuar aberta, argumenta o levantamento do Crunchbase, 2026 poderá ser lembrado não apenas como o ano em que o capital de risco atingiu um novo patamar, mas como o início de um ciclo em que investimento recorde e um mercado de saídas funcional se retroalimentam.

Mais com menos: como nascem e crescem as startups AI-native

Se os números do Crunchbase mostram para onde vai o dinheiro, o relatório da AWS, que leva o título de “Engines of Growth” e foi conduzido pela consultoria britânica Strand Partners, tenta responder a uma pergunta diferente: o que essas empresas estão fazendo de diferente para crescer tão rápido. O estudo ouviu 3.413 fundadores, cofundadores e executivos seniores de startups em 20 países da América do Norte, Europa, Oriente Médio, Ásia-Pacífico e América do Sul, incluindo lideranças do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e México na amostra latino-americana.

O relatório define como “startups nativas em IA” (AI-native) um subgrupo específico de empresas fundadas há menos de cinco anos: aquelas que usam IA em suas formas mais avançadas, construindo modelos próprios ou operando sistemas agênticos, que já estão prontas para a próxima onda da tecnologia (da IA de Borda à IA Física) e que lançaram, ou estão prestes a lançar, um produto ou serviço construído em torno da IA desde o primeiro dia. A diferença em relação a uma empresa que apenas “adiciona” IA a processos já existentes é, segundo o estudo, a distinção central do relatório.

O primeiro insight que vale destacar é sobre velocidade. Historicamente, construir uma empresa unicórnio (avaliada em US$ 1 bilhão ou mais) exigia em torno de sete anos e uma equipe na casa das centenas ou milhares de funcionários. As startups nativas em IA pesquisadas pela AWS estão atingindo a mesma marca em três anos e meio (metade do tempo) e com equipes proporcionalmente muito menores. O relatório ilustra o ritmo com um exemplo hipotético: uma empresa que fatura hoje US$ 1 milhão e cresce à taxa média do grupo (156% ao ano) ultrapassaria US$ 27 milhões de receita em três anos e meio, patamar suficiente para sustentar uma avaliação de US$ 1 bilhão nos múltiplos que o mercado hoje aplica a startups líderes em IA, cerca de 37,5 vezes a receita, segundo dados do PitchBook e da Carta citados no relatório.

Outro ponto que chama atenção é a capacidade de fazer mais com menos. Segundo o levantamento da AWS, essas empresas registram crescimento médio de receita anual de 156%, contra 65% entre startups em geral e apenas 12% entre grandes empresas estabelecidas. Elas também têm 5,2 vezes mais chances de faturar US$ 1 milhão ou mais por ano do que as startups em geral. E 55% delas geram mais de US$ 400 mil de receita por funcionário, contra 34% das startups globalmente e 23% das grandes empresas, um indicador direto de que estão escalando com equipes proporcionalmente menores.

O investimento em IA segue a mesma lógica de aceleração: 46% dessas startups aumentaram os gastos com IA no último ano, ante 35% das startups em geral e 28% das grandes corporações. Quase todas (96%) esperam que a IA impulsione seu crescimento de receita, e 98% já empregam talento dedicado e interno de IA, contra 88% das startups em geral e 70% das grandes empresas.

O comportamento também difere na forma como a tecnologia é usada dentro do negócio. Enquanto a maioria das empresas compra ferramentas prontas para tarefas isoladas, 72% das startups nativas em IA já construíram capacidades próprias de Inteligência Artificial, como modelos proprietários, contra 30% das startups em geral e apenas 12% das grandes empresas. Praticamente todas (100%) estão construindo novos produtos e serviços baseados em IA, ante 62% das startups em geral e 35% das grandes corporações. A IA também é usada como ferramenta estratégica de decisão por 62% dessas empresas (contra 35% das startups em geral e 11% das grandes empresas), em pesquisa e desenvolvimento por 52% (contra 37% e 14%) e em simulações ou gêmeos digitais por 30% (contra 21% e 7%). Além disso, 68% dessas startups já têm uma estratégia formal e abrangente de IA, contra 45% das startups em geral e 29% das grandes empresas.

O relatório da AWS termina argumentando que o impacto dessas startups extrapola seus próprios resultados financeiros. Embora representem apenas 15% do emprego total nas economias avançadas, as startups como um todo já geram quase metade de todos os novos empregos criados nessas economias, e a maior parte desse impulso vem de um pequeno grupo de empresas de crescimento acelerado, como as nativas em IA.

O Brasil dentro dos motores de crescimento

Segundo o recorte nacional divulgado pela AWS Brasil, 13% das startups brasileiras já se qualificam como “AI-native”. Essas startups registram crescimento médio anual de receita de 149%, mais do que o dobro dos 64% observados no restante do ecossistema brasileiro (globalmente, a média das AI-native foi de 156%, então o Brasil fica ligeiramente abaixo do patamar mundial, mas bem à frente das startups locais em geral). Elas também têm 5 vezes mais chances de faturar acima de US$ 1 milhão por ano.

Os demais indicadores seguem o mesmo padrão observado no relatório global:

Um dado chama atenção: 63% das AI-native brasileiras usam IA para personalizar a experiência de clientes, superando até a média global do grupo (61%).

Olhando para a América Latina como um todo – Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México, os cinco países latino-americanos que integraram a amostra da AWS –, o crescimento médio anual de receita das startups AI-native é de 145%, e elas têm 4,9 vezes mais chances de faturar acima de US$ 1 milhão do que as demais startups da região. A maturidade tecnológica também se destaca: 97% já operam em nuvem e contam com talento de IA dedicado internamente, 63% desenvolveram capacidades proprietárias de IA, e 59% usam IA para apoiar decisões em todos os níveis da empresa, quase o dobro dos 30% do restante do ecossistema regional. Apenas 14% das AI-native latino-americanas ainda estão nos estágios mais básicos de adoção da tecnologia, contra 37% do conjunto mais amplo de startups da região.

Pelo menos 64% das startups AI-native brasileiras já têm uma estratégia formal e abrangente de IA, contra 51% das demais companhias do país, reforçando que a diferença entre esses dois grupos não é apenas de intensidade de uso, mas de planejamento.