A soberania é uma prioridade para a alta direção da maioria das organizações, mas 59% afirmam que a soberania digital plena não é uma meta realista. Embora seja discutida em 93% dos boards, a soberania digital acaba dando lugar na estratégia das empresas a uma abordagem mais pragmática com foco em proteger as operações críticas, manter o controle sobre capacidades digitais fundamentais e evitar a dependência de um único fornecedor. Em outras palavras, sai a independência tecnológica completa, entra a interdependência resiliente: o controle seletivo de tecnologias críticas, combinado com parcerias estratégicas, é mais viável do que a propriedade total.
No relatório “Digital Sovereignty: From Policy Ambition to Executive Imperative”, a Capgemini define soberania digital como a capacidade de uma organização de ser resiliente, ter autonomia estratégica e estar livre de interferência externa em cargas de trabalho críticas ao longo de toda a cadeia de valor digital, o que inclui nuvem, dados, Inteligência Artificial, energia, hardware, software, cibersegurança e conectividade. Essas oito dimensões formam o que o estudo chama de “tech stack” da soberania digital, e a organização precisa de controle sobre operações, dados, tecnologia e jurisdição para garantir resiliência e conformidade sob pressão externa.
Entre essas oito dimensões, dados e cibersegurança aparecem como as mais centrais na prática: 78% das organizações incluem dados em sua definição de soberania digital, e 75% incluem cibersegurança, à frente de nuvem (72%), software (61%), IA (56%), hardware (51%), conectividade (44%) e energia (35%, a dimensão menos considerada).
Quando perguntadas quais camadas da pilha tecnológica representam o maior risco à continuidade e à resiliência operacional, as organizações apontaram a cibersegurança como a mais crítica: 45% a citaram como a dimensão de maior risco, seguida de perto por conectividade e Inteligência Artificial (43% cada), dados (42%) e hardware (37%). Ou seja, mesmo com dados e IA concentrando mais atenção na definição de soberania digital, é a cibersegurança que os executivos mais associam a uma ameaça direta à capacidade de manter as operações funcionando. Entre as organizações que apontaram a cibersegurança como fonte de risco, 59% relatam que seus principais fornecedores de segurança cibernética estão baseados em outro país, 41% relatam uma base de fornecedores altamente concentrada e 39% precisariam de mais de 12 meses para trocar de provedor caso fosse necessário. Esses três fatores – dependência estrangeira, concentração de fornecedores e dificuldade de substituição – se repetem em praticamente todas as camadas da pilha tecnológica, mas atingem valores bastante altos em cibersegurança, conectividade e IA, os domínios em que trocar de provedor tende a ser mais difícil por causa da integração operacional profunda e da escassez de alternativas viáveis.
O estudo aponta que trocar de provedor crítico pode levar até um ano: 41% das organizações relatam que uma transição exige de 3 a 12 meses, mais de um terço (36%) relata mais de 12 meses, apenas 13% seriam capazes de fazer a transição em até 3 meses, e 10% afirmam não ter um provedor alternativo viável. Cibersegurança, hardware e conectividade são os domínios em que é mais difícil encontrar provedores alternativos. Agravando esse cenário, apenas 14% das organizações relatam ter visibilidade de ponta a ponta sobre as dependências em sua cadeia de suprimentos tecnológica, 34% têm visibilidade apenas parcial, 31% possuem apenas uma visão de alto nível ou reativa, e 21% não têm visibilidade alguma. Essa lacuna de visibilidade entre equipes técnicas e lideranças executivas é, segundo o relatório, um risco central por si só, pois dificulta avaliar exposição, antecipar disrupções e responder com eficácia quando algo dá errado.
Interdependência resiliente, não isolamento absoluto
A soberania digital, na prática, não significa autossuficiência total. Pelo menos 67% das organizações concordam que soberania digital é definida mais por interdependência resiliente do que por isolamento, proporção que cai para 50% nos Estados Unidos e sobe para 75% na Europa continental. Da mesma forma, quase 70% concordam que ser digitalmente soberano significa ter a capacidade de escolher suas dependências tecnológicas, e pouco mais da metade (54%) concordam que conseguem fortalecer sua soberania digital sem sacrificar competitividade.
Isso também aparece na avaliação sobre o quão realista é buscar controle total: 59% das organizações reconhecem que soberania digital plena não é uma meta realista no atual ecossistema tecnológico, e apenas 28% acreditam que soberania plena seja alcançável. Um procurement leader de uma montadora multinacional global resume bem esse espírito pragmático ao relatório: “O modelo viável é a interdependência controlada: você não constrói tudo sozinho, mas garante que nenhum parceiro seja grande demais para falhar ou poderoso demais para abandoná-lo. É por isso que manter controle sobre chaves de criptografia e arquitetura de dados importa. Assim você consegue desconectar e migrar para outro provedor ao longo do tempo.”
Entre as formas concretas com que as organizações constroem essa interdependência resiliente, o relatório destaca quatro estratégias centrais:
- Multi-cloud – para diversificar dependências entre múltiplos provedores e evitar risco de concentração
- Propriedade das chaves de criptografia – garantindo que nenhum provedor consiga acessar dados sem autorização e reduzindo exposição a leis extraterritoriais
- Estratégias de saída – que garantem a capacidade de migrar cargas de trabalho e trocar de provedor caso a dependência precise ser revertida
- Operações locais – que asseguram conformidade com leis nacionais, reduzem exposição a intervenções estrangeiras e garantem continuidade operacional.
O relatório “Digital Sovereignty with Purpose”, produzido pela PwC em parceria com a AWS, reforça esse vínculo direto entre soberania digital e cibersegurança. Segundo o estudo, mais de 80% das organizações que participaram da pesquisa “EMEA Cloud Business Survey 2025” da PwC estão revisando sua estratégia de nuvem em resposta a mudanças geopolíticas e/ou regulatórias. O documento argumenta que “soberania digital e cibersegurança andam de mãos dadas”. O texto observa ainda que conformidade de dados, residência e controle já figuram com força na norma internacional de gestão de segurança da informação ISO 27001, e que prioridades de segurança ligadas à soberania incluem projetar arquiteturas que mantenham dados sensíveis e capacidades tecnológicas críticas em ambientes controlados, ao mesmo tempo em que se utilizam nuvens públicas completas para outras cargas de trabalho menos sensíveis. E que as avaliações e decisões-chave não devem ser deixadas para as equipes técnicas resolverem sozinhas. “As pessoas que devem tomar essas decisões são os líderes que entendem os riscos de negócio e sabem onde traçar os limites”, cita o texto.
Inteligência Artificial: acelerando os riscos e redefinindo a soberania
Três quartos das organizações (75%) priorizam a IA em sua busca por soberania digital, proporção que sobe para 77% na Ásia-Pacífico (chegando a 87% especificamente na China) e cai para 64% no Reino Unido. É a dimensão mais priorizada entre as oito da pilha tecnológica, à frente até de dados (segunda colocada, com 64% de priorização global). Essa ênfase é particularmente forte em setores que operam infraestrutura crítica ou informações sensíveis: Aerospace e Defesa (82%), Transporte (81%), Telecomunicações (79%) e Governo/Setor Público (76%).
Os governos também estão reagindo: a União Europeia está preparando o EU Chips Act 2.0 para reforçar a produção regional de semicondutores, e a Comissão Europeia já investiu €180 milhões em um contrato de seis anos com quatro provedores europeus de nuvem soberana, anunciado em abril de 2026, para reduzir a dependência de provedores não europeus.
A perspectiva técnica: resiliência cibernética
O artigo “Digital Sovereignty in the Age of Cyber Resilience”, da KPMG, destaca que, sob uma perspectiva técnica de cibersegurança, soberania digital significa garantir que sistemas críticos, identidades, fluxos de dados, controles de segurança e dependências operacionais permaneçam compreensíveis, gerenciáveis e defensáveis. O texto lista desafios comuns: responsabilidades de soberania costumam ser compartilhadas entre provedores, clientes e terceiros, cujas próprias funções de suporte podem depender de modelos ou localizações não soberanos; ambientes existentes muitas vezes não foram projetados pensando em soberania, portabilidade ou segmentação; há dificuldade em equilibrar os benefícios da inovação com os riscos de dependência; existem desafios em aprimorar controle de acesso, criptografia, backup, recuperação e resiliência sem interromper operações; e falta visibilidade sobre dependências técnicas relevantes, já que componentes de serviço em ambientes de hiperescala podem estar distribuídos por múltiplas localizações.
Como caminho prático, a KPMG recomenda identificar os sistemas e serviços que sustentam operações críticas e as dependências técnicas por trás deles; revisar se ambientes críticos podem ser monitorados, protegidos, operados e recuperados sob condições variáveis; entender onde a dependência de provedores ou plataformas específicas pode limitar flexibilidade; e considerar se os modelos tecnológicos atuais, ou alternativas, dão melhor suporte a operações seguras e controláveis.
Como as organizações podem começar sua jornada de soberania digital
Combinando os insights de sua pesquisa com entrevistas de especialistas, a Capgemini propõe um roteiro de cinco etapas para orientar essa jornada.
A primeira é adotar a soberania digital como um tema estratégico de nível de conselho, e não como uma iniciativa tecnológica isolada, o que exige definir previamente quem decide onde a soberania é necessária, como os trade-offs são avaliados e qual nível de risco é aceitável.
A segunda é avaliar a exposição das operações críticas de negócio, mapeando processos essenciais e suas dependências técnicas, já que muitas organizações ainda operam com visibilidade limitada além dos fornecedores diretos ou de primeira camada.
A terceira etapa é priorizar intervenções com base no impacto no negócio e na tolerância a risco, definindo o que a Capgemini chama de soberania digital “viável mínima”, o menor conjunto de capacidades, ativos e controles que precisa permanecer sob controle direto ou assegurado, em vez de buscar soberania em toda a pilha tecnológica.
A quarta é construir resiliência e controle no modelo operacional-alvo, traduzindo os requisitos de soberania em decisões de arquitetura, sourcing e operação, o que pode significar controle total em áreas altamente sensíveis e modelos federados onde a flexibilidade é prioridade maior que a propriedade plena.
A quinta é fomentar ecossistemas de inovação por meio de interdependência gerenciada: 72% concordam que quem não participa ativamente de ecossistemas e consórcios terá dificuldade para alcançar soberania digital, e 67% acreditam que ela pode viabilizar inovação em vez de restringi-la.
Olhando para o futuro, 46% das organizações esperam que a soberania digital se torne um diferencial competitivo central, 39% preveem que ela evoluirá para um requisito de linha de base regulado, e 15% a veem simplesmente como um custo de operação. Quanto à disposição de pagar por isso, 49% das organizações globalmente estão dispostas a pagar um “prêmio de soberania digital”, aceitando, em média, um aumento de 23% sobre os custos atuais.