The Shift

A Robótica acelera em duas velocidades: a fábrica bate recorde e a IA Física atrai bilhões

De 5 milhões de robôs industriais a US$ 89 bilhões em venture capital: o novo ciclo da Robótica (Crédito: Freepik)

O estoque global de robôs industriais cresceu 11% e ultrapassou a marca dos 5 milhões de unidades em 2025. Em dez anos, a demanda da indústria geral quintuplicou e hoje soma 53% dos pedidos, enquanto o automotivo caiu para 23%. Os principais clientes são os setores de Eletroeletrônicos (142 mil, alta de 10%), Automotivo (138 mil, acréscimo de 10%) e Metais e Máquinas (109 mil, alta de 22%). Os robôs colaborativos (cobots), que trabalham ao lado de pessoas, somaram 66.240 unidades ( alta de 7%), 11% do total, segundo dados mais recentes da Federação Internacional de Robótica (IFR).

Geograficamente, a Ásia concentrou 76% das instalações (457 mil), contra 12% da Europa (73 mil) e 9% das Américas (57 mil). A China sozinha instalou 354,2 mil robôs, alta de 20% e 59% do total mundial. Os fornecedores chineses já detêm 55% do próprio mercado. Os EUA voltaram a crescer (38,4 mil, +12%), impulsionados pela política de reindustrialização. Japão (36,2 mil, -19%, o menor nível em uma década) e Alemanha (24,8 mil, -8%) recuaram. A Índia (10,5 mil, +15%) triplicou a demanda em cinco anos.

A IFR projeta 655 mil instalações em 2026 (+9%) e 806 mil em 2029, média de cerca de 7% ao ano. O ritmo, porém, deve ser desigual: para 2026, a entidade prevê alta de 11% na Ásia, estabilidade na Europa e +2% nas Américas. Contra a demanda pesam, segundo a IFR, o crescimento econômico irregular, as tensões geopolíticas, as restrições comerciais e a cautela nos investimentos. A favor da automação pesam o aumento do custo da mão de obra, a escassez de trabalhadores e a reorganização das cadeias de suprimento.

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Já os humanoides seguem incipientes: quase 7 mil humanoides foram vendidos no mundo em 2025. A IFR identificou 174 fabricantes, mais da metade na China. Mesmo assim, avalia que a tecnologia ainda está saindo dos laboratórios para pilotos. Os desafios são segurança, falta de dados de treinamento e ausência de um modelo de negócio economicamente viável.

O capital aposta nos robôs de uso geral

Quando se trata de dinheiro, a aposta acompanha as máquinas cujo comportamento vem de um único modelo treinável, capaz de generalizar entre tarefas e ambientes, em vez de ser programado para uma função repetitiva. O relatório “We’re Betting on the Robotics Frontier”, da Prosus Ventures, braço de investimentos da Prosus, mapeou 85 empresas de Robótica de uso geral, que inclui humanoides e modelos de IA Física. Pelos dados da Dealroom até julho, o investimento de venture capital em Robótica já somava US$ 55 bilhões em 2026, o ano mais ativo da história, com projeção de US$ 89 bilhões até dezembro. Em 2025, foram US$ 30 bilhões. Os EUA concentram 62% desse capital (eram 48% há uma década), contra 21% da China e 15% da Europa. Sete dos dez investidores mais ativos são norte-americanos, liderados pela aceleradora Y Combinator, com 121 rodadas desde 2020. Na Europa, o volume deve passar de US$ 8,1 bilhões para US$ 13,3 bilhões até o fim do ano.

Um levantamento separado da The Robot Report mostra o ritmo. Só em agosto, as empresas de Robótica captaram US$ 4,87 bilhões em 162 transações. Os destaques foram o IPO de US$ 905 milhões da chinesa Unitree e a rodada de US$ 900 milhões da XPENG Robotics.

A tese técnica da Prosus é que os robôs aprenderam a “raciocinar” ao herdar as ferramentas dos grandes modelos de linguagem, por meio dos chamados modelos visão-linguagem-ação (VLA). Com isso, a Prosus espera um “momento GPT-3” em cerca de um ano, com modelos confiáveis o bastante para uso real com ajuste mínimo. O “momento GPT-4” viria por volta de 2028. O custo também cai. O preço de cada articulação robótica caiu quase uma ordem de grandeza, e baterias e motores aproveitam a cadeia de produção dos veículos elétricos. Não por acaso, a China detém entre 63% e 70% da cadeia global de componentes para humanoides. A meta da Prosus é um robô útil de cerca de US$ 20 mil em alguns anos. Nesse preço, a máquina se pagaria em um ou dois anos frente a um turno de trabalho, em tarefas como mover caixas no armazém ou levar peças à linha de montagem. A adoção deve começar por logística, manufatura e inspeção. Consumo e hotelaria viriam depois, e Saúde e Construção ficariam para o longo prazo.

No chão de fábrica: gente, dados e retorno

O especial “State of Robots in Manufacturing”, da The Robot Report, mostra como essa transição chega às fábricas, e o principal gargalo não é o robô. Pelo menos 70% dos fabricantes ainda coletam dados manualmente e a maioria não tem infraestrutura de TI nem para a IA Generativa, muito menos para a IA Física. E o conhecimento dos operadores, construído em décadas de prática, é difícil de passar para uma máquina. A falta de mão de obra, aliás, é o que empurra a automação, num momento de expansão industrial nos EUA. Segundo relatório da MISUMI Americas, o valor adicionado da manufatura norte-americana bateu o recorde de US$ 2,91 trilhões em 2024. Os gastos com construção de fábricas chegaram a US$ 235,6 bilhões naquele ano, quase o triplo de 2021. O relatório também cita dados do Manufacturing Institute e da Deloitte: a indústria americana precisará de 3,8 milhões de trabalhadores até 2033, e 1,9 milhão dessas vagas podem ficar sem preenchimento. Mais de 65% dos fabricantes apontam atrair e reter talentos como seu maior desafio. Na construção naval militar, a Marinha dos EUA projeta a necessidade de 174 mil novos trabalhadores em dez anos, e 50% a 60% dos novatos saem antes de completar o primeiro ano.

Enquanto a Robótica industrial clássica cresce de forma sólida, concentrada na Ásia e cada vez mais puxada por setores fora do Automotivo, a Robótica de uso geral, com humanoides e modelos de IA Física, atrai capital recorde e ganha capacidade rapidamente, mas ainda precisa provar confiabilidade, custo e escala. A própria IFR resume o momento: os humanoides ainda precisam demonstrar confiabilidade e eficiência, mas já funcionam como vitrine de inovações que devem migrar para os robôs convencionais.