The Shift

Robôs para companhia emocional colocam IA Física dentro da sua casa

A empresa chinesa UBTech Robotics colocou à venda o U1, apresentado como o primeiro humanoide “ultra-biônico” em tamanho real do mundo desenvolvido especificamente para “companhia emocional” (Crédito: Reprodução/YouTube)

De um lado, um mercado que pode movimentar US$ 5 trilhões até 2050. Do outro, a necessidade de uma população idosa por cuidado e companhia. As duas pontas se unem com a corrida de hardware e escala para produzir robôs que vão levar a IA Física para dentro das nossas casas. Os formatos e até mesmo a procedência (o famoso “Made in”) ainda não estão definidos, mas o que vai ficando claro é que, mais do que tarefas domésticas, a “demanda por companhia” será a porta de entrada comercial mais rápida para empresas que apostam no setor.

Esse mercado vai viver um ano decisivo em 2026. Há pouco mais de um mês, a chinesa UBTech Robotics colocou à venda o U1, apresentado como o primeiro humanoide “ultra-biônico” em tamanho real do mundo desenvolvido especificamente para “companhia emocional”. Diferente de seus antecessores, pensados para levantar peso, soldar peças ou movimentar caixas, o U1 foi projetado para conversar, aprender rotinas, demonstrar expressões faciais e, segundo a empresa, “evitar que o usuário se sinta sozinho”. O U1 vem em dois tamanhos: uma versão masculina de 183 centímetros e 42 quilos, e uma feminina de 168 centímetros e 35,2 quilos. Além do armazenamento de memória criptografado, possui um sistema de IA afetiva que aprende continuamente sobre a pessoa com quem interage. As pré-vendas anunciadas em 2 de junho exigiam um depósito de aproximadamente US$ 440 e a empresa vendeu mais de 3.000 unidades em poucos dias.

A aposta da UBTech não é aleatória. A empresa está mirando dois públicos específicos na China: solteiros e pessoas com mais de 60 anos, grupos que somam, respectivamente, 120 milhões e 320 milhões de consumidores em potencial no país. É um universo gigantesco de “corações solitários”, e a aposta das fabricantes chinesas é que a demanda por companhia vá crescer mais rápido do que a capacidade dos robôs de executar tarefas domésticas complexas. Segundo a consultoria TrendForce, o mercado de humanoides voltados à companhia deve atingir US$ 1,1 bilhão na China até 2030, puxado pelo envelhecimento populacional, pela queda das taxas de natalidade e pelo crescimento de domicílios unipessoais, o que os investidores já chamam de “Economia da Companhia”.

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As vendas anuais de humanoides fabricados na China devem mais que dobrar em 2026, para cerca de 28.000 unidades, superando qualquer outra economia do mundo, de acordo com o Morgan Stanley. Dos 13.000 a 16.000 robôs humanoides embarcados globalmente em 2025, cerca de 90% saíram de fábricas chinesas, enquanto a maior parte da concorrência internacional ainda está em estágio de protótipo. O preço também despencou: unidades que custavam milhões de yuanes há poucos anos hoje têm equivalentes voltados ao consumidor final por uma fração do valor. O Bumi, da Noetix, e o R1 Air, da Unitree, ambos lançados em 2025 para o público entrante, custam 9.998 yuanes (cerca de US$ 1480) e 29.900 yuanes (poucos mais de US$ 4.427), respectivamente.

O capital de risco aposta nos idosos

Mais de US$ 38 bilhões em capital de risco foram investidos em robótica e IA Física somente neste ano, segundo levantamento do PitchBook. O investimento mais do que dobrou desde 2024, quando foram registrados US$ 14,1 bilhões. Mais de 140 empresas chinesas com upwards de 330 modelos de robôs humanoides já foram lançados. Em junho, a General Intuition, laboratório de IA que usa clipes de videogame como dado de treinamento para robôs, levantou uma rodada Série A de US$ 320 milhões. Em maio, o CEO da OpenAI, Sam Altman, publicou nas redes sociais que a empresa pretende expandir sua divisão de robótica e começou a recrutar engenheiros para isso.

Mas para fazer o caixa girar mais rápido, é preciso ultrapassar o “Uncanny Valley”, o chamado “Vale da Estranheza”. Quanto mais um robô se aproxima da aparência humana sem realmente ser humano, maior o risco de esbarrar no desconforto psicológico que sentimos diante de algo quase, mas não completamente, humano. O modelo chinês U1 caminha deliberadamente nessa direção: pele macia, cabelo fino e detalhado, cabeça, olhos e boca motorizados para simular expressões. A UBTech chega a oferecer a personalização da aparência do robô para que ele se pareça com uma pessoa querida do comprador, o que reforçou as preocupações sobre dependência emocional e a coleta de dados pessoais sensíveis, já que, para simular intimidade, o robô precisa memorizar hábitos, emoções e confidências do usuário.

O caminho oposto, e deliberado, aparece no design do ElliQ, robô de companhia para idosos criado pela startup israelense Intuition Robotics. Diferentemente do U1, o ElliQ não tem rosto: é uma base metálica com uma “cabeça” arredondada que se ilumina e gira, ao lado de uma tela sensível ao toque. Assim não há risco de pensar que se trata de um humano. Em vez de um rosto, o ElliQ comunica atenção e emoção por meio de uma “linguagem abstrata” de luz, com cores e movimentos que indicam quando está “”falando” ou “pensando”, inclusive acendendo em rosa quando simula um abraço (a startup brinca que o ElliQ detém o recorde mundial do Guinness de “melhor abraço robótico”).

A Intuition Robotics prioriza a venda a programas estaduais de Medicaid nos Estados Unidos, que cobrem o custo integralmente para idosos elegíveis. Em março de 2026, o estado de Washington se tornou o primeiro a permitir o reembolso total via Medicaid para o dispositivo. Os estados de Wisconsin, Flórida e Nova York já oferecem algum tipo de reembolso. A startup também confirmou planos de lançar o ElliQ no Japão, onde a crise de cuidados a idosos está atingindo um ponto muito preocupante. O país registra 36 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, ou seja, 29% da população japonesa. E com um agravante: somente pessoas com 100 anos ou mais somam 100 mil. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais no mundo deve saltar de 1 bilhão em 2020 para 1,4 bilhão em 2030, quando 1 em cada 6 habitantes do planeta estará nessa faixa etária, e chegar a 2,1 bilhões até 2050. O grupo de 80 anos ou mais deve triplicar no mesmo período, para 426 milhões de pessoas. Se para dar conta dessa transformação, a tecnologia deveria imitar rostos humanos ou assumi-los como o que são e se a solidão da terceira idade deve ser resolvida (ou apenas administrada) por um robô, ainda não está claro. Para James Wright, pesquisador acadêmico e autor do livro “Robots Won’t Save Japan: An Ethnography of Eldercare Automation”, questiona se o debate é mesmo esse. “Talvez o índice de solidão realmente caia, mas comparado a qual intervenção alternativa? Você fica feliz que uma senhora, vivendo uma existência isolada, possa conversar com um computador que lhe fornece a companhia de que precisa para continuar a viver sozinha? É esse o tipo de futuro que também queremos para nós mesmos?”