Em apenas dois anos, o Pix passou de novidade para infraestrutura de pagamentos do Brasil. Os números de 2025 contam essa história sozinhos: quase 80 bilhões de transações no ano, mais de R$ 35 trilhões movimentados, 148 milhões de pessoas físicas e 12,8 milhões de empresas usando o sistema todo mês. Na prática, 86% da população adulta brasileira faz ou recebe Pix.
O amadurecimento do sistema levou à mudança de comportamento, como mostra o recém-publicado “Relatório de Gestão do Pix 2023-2025”, divulgado pelo Banco Central (BC). Isso é visível na reorganização da “briga” entre bancões e fintechs, nas transações entre empresas que já pesam quase tanto quanto as transações entre amigos e familiares e até mesmo na queda de braço diplomática com os Estados Unidos.
Alguns números de 2025:
- O Pix registrou 79,8 bilhões de transações no ano passado, alta de 25,7% frente aos 63,4 bilhões de 2024.
- O volume financeiro cresceu ainda mais rápido, atingindo 33,8% e ultrapassando R$ 35,3 trilhões, ante R$ 26,4 trilhões no ano anterior. Só em dezembro, o mês mais movimentado do ano, foram 7,8 bilhões de transações e R$ 3,7 trilhões movimentados.
- Dois recordes marcaram o ano. O maior número de transações em um único dia ocorreu em 5 de dezembro de 2025, com aproximadamente 313,3 milhões de operações. Já o maior volume financeiro movimentado em 24 horas foi registrado 14 dias depois, em 19 de dezembro, quando o Pix somou R$ 193.473.609.406,39, pouco mais de R$ 193,4 bilhões num único dia.
- A base de usuários também não para de crescer, ainda que em ritmo mais lento do que nos primeiros anos, o que já era esperado. Ao fim de 2025, havia mais de 920 milhões de chaves Pix cadastradas, alta de 12,7% em relação a 2024, vinculadas a mais de 162 milhões de pessoas físicas e mais de 16 milhões de empresas.
- Desde o lançamento, em novembro de 2020, os brasileiros já fizeram 105,8 milhões de portabilidades de chaves entre instituições e 7,3 milhões de reivindicações de posse de chave.
- O Pix terminou 2025 com 926 instituições participantes, 5,6% a mais do que em 2024.
O relatório do BC indica que a “fase de expansão simples” ficou para trás: a partir de agora, o Pix entra numa fase de regras mais duras, de novos produtos ainda engatinhando e de uma agenda internacional que pode redefinir o papel do sistema fora do Brasil.
De transferência entre amigos a instrumento de varejo
Em 2020, ano do lançamento do Pix, 85% das transações eram entre pessoas físicas (P2P), típico de operações como “vaquinha”, mesada e divisão de conta de bar. Esse padrão mudou rápido. Em 2025, 43% de todas as transações Pix foram de pessoas físicas para empresas (P2B), um salto de 4 pontos percentuais sobre 2024 e de 37 pontos percentuais sobre 2020. Olhando pelo valor movimentado, e não pela quantidade de transações, a mudança é ainda mais marcante: o volume transacionado entre empresas (B2B) já responde por 47% de todo o valor movimentado no Pix em 2025, superando o volume entre pessoas físicas.
“Esses números demonstram o processo de maturidade do Pix, que passou de um meio utilizado primordialmente para viabilizar transferências digitais entre pessoas para um meio de pagamento central para o funcionamento do varejo brasileiro”, cita o Banco Central no documento. Em outras palavras, o Pix deixou de ser só uma forma de mandar dinheiro para um amigo e virou concorrente direto de maquininha de cartão.
Os valores das transações reforçam esse retrato de uso cotidiano, e não de grandes movimentações financeiras. Em 2025, 59% das transações entre pessoas físicas ficaram na faixa de até R$ 60, enquanto 21% superaram R$ 200. Entre pessoas físicas e empresas, a concentração em valores baixos é ainda maior: 76% das transações não passaram de R$ 60, e apenas 8% ultrapassaram R$ 200. De forma agregada, 71% de todas as transações Pix realizadas no país em 2025 foram de até R$ 100. O valor médio de uma transação entre pessoas físicas ficou em torno de R$ 273 (mediana de R$ 50); entre pessoa física e empresa, a média foi de R$ 115 (mediana de R$ 25). Olhando o conjunto de todas as transações, a média foi de R$ 440, mas a mediana, que reflete melhor o “Pix típico” do brasileiro, sem ser puxada por poucas transações grandes, foi de apenas R$ 36.
Fintechs dominam o volume, bancos ainda dominam o dinheiro
Em 2020, os bancos abriram a corrida do Pix na liderança folgada, com 55,8% de todas as transações (na ponta pagadora), enquanto as instituições de pagamento, categoria que inclui a maioria das fintechs, respondiam por 25,5%. Em 2025, o quadro se inverteu: as instituições de pagamento passaram a concentrar 50% das transações, um aumento de 3,7 pontos percentuais só no último ano, enquanto os bancos caíram para 35%.
A virada não é completa. Quando o critério muda de quantidade de transações para valor movimentado, os bancos tradicionais seguem na frente: em 2025, os bancos concentraram 61,3% de todo o valor transacionado no Pix (ante 74,5% em 2020), enquanto as instituições de pagamento ficaram com 21,3% (ante 9,7% em 2020). A leitura mais simples dos dados é que as fintechs venceram a guerra do volume, ou seja, muitas transações pequenas e frequentes, mas os bancões ainda concentram os pagamentos de valores mais altos.
A transformação do setor financeiro caminha lado a lado com regras de entrada mais rígidas, uma resposta direta ao crescimento de fraudes que passaram a usar o Pix como via de distribuição. Desde novembro de 2024, só podem participar do Pix instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central. O prazo para que instituições de pagamento ainda não autorizadas regularizassem sua situação, inicialmente marcado para 31 de dezembro de 2026, foi antecipado para 1º de maio de 2026. Desde janeiro deste ano, todos os participantes, com exceção das cooperativas de crédito, precisam manter capital social e patrimônio líquido de pelo menos R$ 5 milhões. São exigências que tendem a filtrar fintechs menores e menos capitalizadas, mesmo em um mercado que, pelos números, segue mais aberto do que o sistema bancário tradicional.
O brasileiro trocou o dinheiro pelo Pix
Um capítulo do relatório resume os resultados da pesquisa “O brasileiro e os hábitos de uso de meios de pagamento”, segunda edição, com trabalho de campo realizado entre outubro e novembro de 2023 e publicada pelo BC em novembro de 2024, a primeira edição da pesquisa a medir o efeito direto do Pix. O levantamento entrevistou 1.500 pessoas e 600 estabelecimentos comerciais, e coletou 1.228 “diários de pagamento”, nos quais os participantes registraram durante uma semana todas as transações e transferências feitas, totalizando 11.023 transações analisadas.
Os números mostram uma reviravolta na forma como o brasileiro paga. Em 2019, antes do Pix, 76,6% dos pagamentos registrados nos diários eram feitos em dinheiro. Em 2023, essa fatia caiu para 40,5%, uma queda de 36 pontos percentuais, enquanto o Pix já respondia por 24,9% dos pagamentos, tornando-se o meio eletrônico mais usado do país. Quando perguntadas diretamente sobre sua preferência, 64,9% das pessoas citaram o Pix como meio de pagamento preferido, superando os 55,7% que citaram dinheiro. Do lado do comércio, o Pix também já era, em 2023, o meio de pagamento mais lembrado pelos estabelecimentos (69,5% de menções, contra 64,4% do dinheiro) e o segundo mais preferido para receber pagamentos, apenas três anos depois do lançamento, com facilidade de recebimento e segurança como principais razões citadas.
A pesquisa também expôs as barreiras que ainda seguravam parte da população fora do sistema: 17,3% dos entrevistados não haviam usado o Pix nos 12 meses anteriores, e o motivo mais citado (37,3% desse grupo) foi simplesmente falta de conhecimento sobre como usar a ferramenta. Mesmo entre usuários do Pix, 33,5% às vezes escolhiam outro meio de pagamento por ser mais rápido, e 24,2%, por dificuldade de acesso à internet.
Esses achados aparecem refletidos nos dados oficiais de uso por perfil demográfico. Por faixa etária, o uso do Pix em 2025 supera 85% entre pessoas de 20 a 49 anos, mas cai para 51% entre maiores de 60 anos, ainda que crescendo ano a ano em todas as faixas, inclusive entre os mais velhos. Por região, o uso é surpreendentemente homogêneo: praticamente todos os estados têm mais de 80% da população adulta usando Pix, com Distrito Federal e Roraima batendo perto de 100%, São Paulo em 94% e até a Região Norte (de renda média mais baixa) acima de 80%. Por gênero, a distribuição é quase equilibrada: 51% das transações são feitas por homens e 49% por mulheres (estável desde 2021), embora, em valor, a diferença aumente um pouco: 59% do volume vem de pagadores homens e 41%, de mulheres.
O reconhecimento da marca também virou estatística oficial: o Pix se tornou a primeira marca de titularidade de um órgão público a receber o registro de “marca de alto renome” pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), categoria reservada a marcas amplamente reconhecidas pelo público, com prestígio e confiança consolidados. Uma pesquisa da CP2 Consultoria, realizada no fim de 2025, apontou que 88,5% das pessoas com 16 anos ou mais reconhecem a marca do Pix ao ver seu símbolo gráfico.
Pix: segurança e acessibilidade para cidadãos
O relatório dedica atenção especial ao uso do Pix por órgãos governamentais, para pagar ou receber de cidadãos e empresas. Em 2025, foram mais de 282 milhões de transações envolvendo instituições e órgãos públicos, alta de 44,3% sobre 2024. Dentro desse universo, as transações de pessoa física para governo (pagamento de taxas e impostos, por exemplo) somaram mais de 172 milhões, mais de 60% do total, com crescimento de 47% no ano. Em valor, porém, o retrato se inverte: as transações com entes públicos movimentaram cerca de R$ 408 bilhões em 2025, mas as de pessoa física para governo responderam por apenas 16% desse total (cerca de R$ 65 bilhões).
A maior parte do dinheiro está em pagamentos maiores, como o governo pagando os fornecedores. O Banco Central lê esse número como um sinal de que ainda há bastante espaço para expandir o uso do Pix na arrecadação de impostos e no pagamento de benefícios, aposentadorias e restituições de imposto de renda, inclusive por meio do CPF cadastrado como chave Pix.
O preço do avanço e da popularidade do Pix é que o sistema tornou-se alvo de fraudadores. O Banco Central adotou nos últimos anos uma série de medidas de segurança para conter o problema, sem abrir mão da velocidade que fez o Pix ser adotado tão rapidamente. Além de mecanismos como o “botão de contestação”, lançado em outubro de 2025, o BC veio com o “bloqueio cautelar”, que permite reter por até 72 horas recursos suspeitos de fraude. O Banco Central também passou a aplicar multa diária a instituições que descumprem determinações regulatórias: o valor-base é de R$ 10 mil por dia (limitado a 60 dias), multiplicado por um fator que considera o tamanho do ativo total de cada instituição, o que pode levar a multa diária a até R$ 200 mil para as maiores participantes.
Os produtos que ainda engatinham
Nem tudo no relatório é sobre volume consolidado. Uma parte importante do documento descreve produtos lançados recentemente que, mesmo crescendo rápido em termos percentuais, ainda representam uma fatia pequena do Pix total, um sinal de que o sistema segue em expansão de funcionalidades, não só de usuários.
O mais comentado é o Pix Automático, lançado em 16 de junho de 2025 para substituir o débito automático tradicional: o usuário autoriza uma vez, e os pagamentos recorrentes – contas de consumo, mensalidades, assinaturas – passam a ser debitados automaticamente, sem nova autorização a cada cobrança. Em dezembro de 2025, o produto somou quase 600 mil transações e R$ 133,2 milhões em volume financeiro, mais do que o dobro da quantidade e cinco vezes o valor registrado em novembro. O número de recebedores (empresas) oferecendo a opção passou de mil em dezembro. É um crescimento rápido, mas a base de comparação ainda é pequena diante dos quase 80 bilhões de transações Pix no ano.
Outro produto em curva de crescimento é a recorrência no Pix Agendado, obrigatória desde outubro de 2024: em 2025, foram 204 milhões de transações agendadas, alta de 56% sobre 2024, movimentando pouco mais de R$ 1 trilhão (crescimento de 51%). Ainda assim, o Agendado representa apenas cerca de 0,3% da quantidade total de transações Pix e 2,8% do volume, um produto que cresce forte, mas de um patamar ainda baixo.
Já o Pix por aproximação, pagamento por NFC, aproximando o celular de uma maquininha, sem precisar abrir o aplicativo do banco, formalizado no regulamento do Pix em junho de 2025, ainda não mostra uma tendência clara de crescimento, oscilando entre 0,28 e 1,4 milhão de transações por mês entre junho e dezembro de 2025. O próprio Banco Central atribui o uso ainda tímido a fatores como a restrição da funcionalidade a aparelhos com sistema Android em muitos bancos, o desconhecimento do público e do comércio sobre essa forma de pagamento, e a disponibilização limitada nas carteiras digitais (o Pix é uma infraestrutura aberta, mas cabe a cada instituição decidir se oferece ou não a função por aproximação0.
Um produto que já mostra tração mais robusta é a iniciação de pagamentos via Open Finance, quando o usuário autoriza uma transação Pix diretamente de dentro de um aplicativo terceiro, sem precisar redirecionar para o app do banco. Esse tipo de transação saltou de 7,4 milhões em 2024 para 64,5 milhões em 2025, portanto mais de 8 vezes. O volume financeiro quase quintuplicou: foi de R$ 3,17 bilhões para R$ 15,3 bilhões. O salto expressivo é explicado, segundo o relatório, pela entrada de “um participante relevante e já consolidado no mercado” que passou a oferecer iniciação de Pix por meio de sua carteira digital (o Banco Central não cita o nome da empresa).
Por fim, o Pix Saque e o Pix Troco, que permitem sacar dinheiro em espécie usando o Pix (em caixas de correspondentes bancários, lotéricas e terminais de autoatendimento) seguem caminhos opostos. O Pix Saque cresceu 20,8% em 2025, para 19,5 milhões de transações, com R$ 5,5 bilhões sacados (alta de 36,5%). Já o Pix Troco recuou 11,8%, para 102,3 mil transações, mesmo com o valor movimentado crescendo 4,8%, para R$ 19,4 milhões, indicação de que a digitalização dos pagamentos foi corroendo a própria noção de “troco”. Ao fim de 2025, cerca de 14 mil estabelecimentos ofereciam essas duas modalidades.
Pix vira munição em disputa comercial com os EUA
O relatório do Banco Central chega em um momento de atrito internacional. O governo dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, impôs uma tarifa de 25% sobre uma série de produtos brasileiros importados, alegando “práticas comerciais desleais” e citou o Pix entre elas, argumentando que o sistema prejudicaria empresas norte-americanas de pagamento. Nesse contexto, o “Relatório de Gestão do Pix” chama atenção ao confirmar que o Banco Central estuda formalmente interligar o Pix a sistemas de pagamentos instantâneos de outros países, avaliando dois caminhos: acordos bilaterais com países específicos ou participação em “hubs” multilaterais que conectam vários sistemas ao mesmo tempo.
Segundo o documento, esse tipo de interligação tem potencial para reduzir tarifas, aumentar a velocidade e ampliar o acesso a compras e remessas internacionais, disponibilizando recursos em moeda local em poucos segundos. Hoje, o uso do Pix fora do Brasil já existe, mas só por meio de parcerias privadas entre instituições financeiras brasileiras e estrangeiras em países como Chile, Argentina, Estados Unidos, Portugal e França, sem que o dinheiro efetivamente trafegue pela infraestrutura pública do Pix em si: a instituição brasileira faz o Pix domesticamente e depois envia os recursos ao exterior pelos canais tradicionais, fora do sistema.