The Shift

A web dominada por bots: o alerta do CEO da Cloudflare sobre o futuro da internet

Quando a IA passa a navegar por nós: o que muda na internet dominada por agentes, segundo Matthew Prince, CEO da Cloudfare (Crédito: Reprodução/YouTube)

A Cloudflare opera infraestrutura que intermedia cerca de 20% de todo o tráfego da web, o que dá à empresa uma visão quase em tempo real das transformações no uso da rede. Para o cofundador e CEO Matthew Prince, isso lhe permite observar de uma posição privilegiada o que está mudando na internet. E essa mudança, garante, está acontecendo de forma muito mais rápida do que muitos imaginavam. “Houve muito hype sobre IA três anos atrás, mas a mudança real aconteceu apenas nos últimos seis meses”, disse ele no painel “The Internet After Search”, na SXSW 2026.

O primeiro efeito visível é um “boom” na produção de código e novos sites, turbinado por ferramentas de IA Generativa. “A capacidade de criar código foi completamente democratizada. Em apenas seis meses vimos uma explosão na criação de conteúdo e de novos sites”, afirmou. Mas a transformação mais profunda está acontecendo no tipo de entidade que navega na internet.

Durante décadas, uma parcela relevante do tráfego já vinha de bots, como os “crawlers” do Google. Ainda assim, humanos eram a maioria. Isso está prestes a mudar. “Suspeitamos que até 2027 o tráfego de bots vai superar o tráfego humano na internet”, disse Prince. E a razão é simples: os agentes de IA navegam muito mais intensamente do que pessoas.

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Esse milestone já havia sido anunciado em setembro do ano passado, quando um estudo da Five Percent indicou que o conteúdo criado por IA ultrapassou o conteúdo escrito por humanos na internet no final de 2024.

Mas Matthew Prince trouxe mais do que está vindo por aí para o palco do SXSW 2026. “Se um humano pesquisa uma câmera digital, ele visita talvez cinco sites. Um agente pode visitar cinco mil”, explicou. Cada uma dessas visitas gera requisições, consumo de infraestrutura e custos operacionais para quem mantém os sites. Em outras palavras, a internet seria movimentada muito mais por IA Agêntica daqui para frente.

Segundo Prince, o crescimento lembra um episódio ocorrido durante a pandemia de Covid-19, quando o consumo de streaming disparou. “Em abril de 2020, em apenas duas semanas, o tráfego da internet praticamente dobrou”, lembrou ele. Naquele momento, gigantes como YouTube, Netflix e Disney chegaram a discutir reduzir a qualidade dos vídeos para evitar um colapso na infraestrutura europeia.

Agora o fenômeno é diferente: não é um pico temporário, mas uma tendência estrutural de crescimento contínuo. “Estamos vendo o tráfego crescer e crescer, e não há nada que indique que isso vai desacelerar.”

Para lidar com esse cenário, será necessário desenvolver novas tecnologias de execução de código. Prince descreve um futuro em que agentes criam e executam pequenos programas temporários em grande escala. “Vamos ter milhões de sandboxes sendo criadas por segundo, executando código para agentes e depois sendo destruídas”, previu o CEO do Cloudfare. Essa nova camada de infraestrutura ainda está sendo construída por startups e empresas de cloud.

O modelo econômico da internet está quebrando

O ponto central da discussão é econômico. Até aqui, o modelo dominante da internet foi relativamente simples:

  1. Criar conteúdo
  2. Atrair tráfego
  3. Monetizar com publicidade ou assinaturas

Esse modelo sustentou plataformas, veículos de mídia e criadores digitais. Mas ele começa a falhar quando a interação com conteúdo passa a ocorrer dentro de interfaces de IA. “Bots não clicam em anúncios”, explicou Matthew Prince. Quando um usuário recebe a resposta diretamente de um chatbot, ele raramente visita o site original que produziu aquela informação.

Isso cria um problema fundamental: quem paga pela infraestrutura e pela produção de conteúdo?

“Precisamos descobrir quem vai pagar pela infraestrutura da internet no futuro”, colocou o cofundador da Cloudfare.

Para mostrar o nível de incerteza atual, Prince cita três gigantes do varejo que estão adotando estratégias completamente diferentes para lidar com bots.

Walmart: abertura total. A estratégia do Walmart é permitir que agentes de IA interajam livremente com sua plataforma. “A estratégia do Walmart é ‘venham todos’. Se você tem um agente, ele pode comprar no Walmart.” O risco é perder o relacionamento direto com o consumidor.

Amazon: bloqueio. Já a Amazon está tentando impedir que agentes realizem transações automaticamente em sua plataforma. “A Amazon está literalmente processando empresas para impedir que bots façam compras em seu site.” O objetivo é evitar que intermediários de IA controlem a experiência de compra.

Target: modelo híbrido. A Target tenta um meio-termo: bots podem operar, mas apenas dentro da própria plataforma. Para Prince, o fato de três empresas sofisticadas adotarem estratégias opostas mostra algo importante: “Se você acha que não sabe como será o futuro, saiba que três das empresas mais inteligentes do mundo também não sabem.” 

 

A possível nova economia da mídia e o risco para pequenos negócios

Apesar das ameaças ao modelo atual, Prince vê um possível lado positivo para o setor de mídia. Ele acredita que a IA pode valorizar conteúdo realmente original, principalmente informações locais e exclusivas.

Prince e sua mulher, Tatiana, são proprietários de um jornal local em Utah, o Park Record. Segundo ele, o veículo pode em breve ganhar mais dinheiro licenciando conteúdo para empresas de IA do que com publicidade digital. “Este ano talvez ganhemos mais licenciando conteúdo para empresas de IA do que com anúncios digitais”, afirmou.

A razão é simples: os modelos de IA precisam de informações que não estão disponíveis em outros lugares. “Se você está construindo o cérebro do mundo, precisa saber coisas como qual é o novo restaurante em Park City.” Prince usa uma metáfora interessante para explicar o problema. Ele descreve os modelos de linguagem como um enorme queijo suíço. “Os LLMs são um modelo matemático do conhecimento humano, mas também mostram onde estão os buracos nesse conhecimento.” Empresas de IA estão dispostas a pagar para preencher esses “buracos” com dados únicos.

O impacto das interfaces de IA provoca mudanças de comportamento, atingindo até mesmo a confiança. Se antes a fonte era importante para dar credibilidade a uma informação, isso não será verdade necessariamente. Prince compara o futuro ao desenho animado “The Jetsons”, em que a família confia em uma robô doméstica chamada Rosie.

“Rosie não diz de onde veio a informação. Ela é confiável simplesmente porque é Rosie.” Na prática, os dados já mostram esse comportamento. Segundo ele, ficou 50 vezes mais difícil gerar tráfego a partir do Google do que há dez anos, porque os usuários estão satisfeitos com as respostas exibidas diretamente nos resultados de busca. “As pessoas estão confiando na resposta da IA e não clicam mais nas fontes originais.”

Se Prince está relativamente otimista sobre o futuro da mídia, ele demonstra preocupação com outro setor: pequenos negócios. Grande parte do consumo local depende de fatores emocionais ou de conveniência — proximidade, familiaridade ou confiança pessoal. Mas os agentes de IA não levam esses fatores em consideração.

“Meu bot não se importa com a simpatia do atendente da lavanderia. Ele vai encontrar a melhor opção disponível”, resumiu o CEO da Cloudfare.

Isso pode favorecer empresas altamente otimizadas e centralizadas. Prince alerta que, sem mecanismos de equilíbrio, a IA pode gerar uma forte concentração econômica. “A tendência natural da IA é a agregação.” Ele relata ter ouvido de um CEO um cenário extremo: “No futuro talvez existam apenas cinco tipos de empresas: uma que fabrica, uma que controla o dinheiro, uma que controla imóveis, uma que transporta produtos e uma empresa de IA.”

Prince acredita que esse resultado não é inevitável, mas exige escolhas deliberadas.

Apesar dos riscos, Prince vê o momento atual como um dos mais interessantes da história da tecnologia. A pergunta central ainda não tem resposta. “A questão mais interessante dos próximos cinco anos é: qual será o modelo de negócios da internet?”

As decisões tomadas agora sobre acesso, remuneração e controle é que vão definir quem se beneficia desse novo ciclo tecnológico, sejam humanos ou máquinas.