A IA está absorvendo parte do trabalho repetitivo e administrativo que historicamente definiu funções de entrada em cibersegurança, e 56% dos profissionais já percebem essa redução na necessidade de posições júnior. Ao mesmo tempo, 53% enxergam a criação de novos tipos de funções de nível inicial, e 48% se dizem mais otimistas quanto ao futuro da carreira na área por causa da IA. Esses números não resumem a transformação por que passam os cargos nos setores de segurança digital e TI, mas traduzem a urgência em repensar e redesenhar uma série de funções da base até o topo.
O relatório “Rethinking AI’s Impact on Cybersecurity Roles”, do ISC2 (International Information System Security Certification Consortium), com pesquisa realizada com 856 profissionais de cibersegurança que utilizam IA em suas funções em maio de 2026, explorou como a IA está mudando o tempo dedicado a diversas tarefas de segurança, as perspectivas sobre a evolução das funções de entrada, o impacto da IA no estresse relacionado ao trabalho e outros temas centrais para o futuro da profissão. Para começar: onde, exatamente, os profissionais de cibersegurança estão passando a investir seu tempo. Ao longo do último ano, a maior mudança registrada foi o crescimento do tempo dedicado à supervisão humana dos resultados gerados por IA. Aproximadamente dois terços dos participantes da pesquisa relataram passar mais tempo decidindo quando confiar ou agir com base em recomendações geradas por IA (65%) e revisando ou validando as saídas produzidas pela IA (63%).
Esse dado se casa com insights do relatório global “Trust, attitudes and use of artificial intelligence”, conduzido pela KPMG em parceria com a Universidade de Melbourne, em 2025, que constatou que 66% dos funcionários em geral (não apenas profissionais de cibersegurança) confiaram em resultados gerados por IA sem verificar sua exatidão, o que levou a erros no trabalho de 56% desses usuários. O esforço crescente de validação relatado pelos profissionais de segurança parece ser uma resposta direta a um problema mais amplo e já documentado: o uso de recomendações de IA sem a devida checagem.
Quanto às tarefas tradicionais, “mão na massa”, o quadro é mais equilibrado do que se poderia esperar. As respostas se dividiram de forma quase igual:
- 35% dos profissionais disseram dedicar menos tempo a tarefas práticas e operacionais
- 32% relataram passar mais tempo nesse tipo de atividade
- 33% não notaram mudança alguma com uso de IA
Um padrão semelhante apareceu quando o tema foi supervisão de sistemas ou procedimentos de segurança: 30% disseram supervisionar menos, 39% relataram supervisionar mais, e 31% não perceberam alteração. Outro dado importante: 48% dos participantes afirmaram que hoje dedicam menos tempo a tarefas que não envolvem qualquer assistência de IA, um indício claro de que a ferramenta deixou de ser acessória e passou a permear a rotina da maioria das funções de segurança.
O impacto da IA sobre as vagas de nível inicial em cibersegurança
Como já acontece em outras áreas, a IA está sendo apontada como o principal motivo para reduzir a oferta de vagas iniciais em segurança digital, que historicamente são a porta de entrada de novos talentos para a profissão. Pelo menos 56% dos participantes afirmaram que a IA reduziu, de forma moderada ou significativa, a necessidade de posições de nível inicial ao longo de 2025. Por outro lado, quase um em cada cinco (19%) relatou pouco ou nenhum impacto da IA sobre essas funções, e 12% disseram que a IA na verdade aumentou a necessidade desse tipo de posição. Uma parcela de 13% se disse incerta, sinalizando que ainda há bastante ambiguidade sobre como essas funções estão evoluindo.
Ainda assim, o quadro não é totalmente de retração. Pelo menos 53% acreditam que a IA está criando novos tipos de funções de nível inicial, e 48% afirmaram que a IA os deixa mais otimistas quanto às suas carreiras de longo prazo em cibersegurança. Esses dados sugerem que as funções tradicionais de início de carreira, e o volume de oportunidades disponíveis, não estão necessariamente encolhendo, mas sim se transformando. Segundo o relatório da ISC2, essa leitura se aproxima das conclusões do mais recente “ISC2 Cybersecurity Workforce Study” (Estudo da Força de Trabalho em Cibersegurança da ISC2), que já vinha apontando para uma reconfiguração, e não um desaparecimento, das oportunidades de entrada na área.
Se a IA está mudando a natureza do trabalho, uma pergunta natural é: ela também está comprometendo o aprendizado prático dos profissionais? Os dados aqui são mais divididos. Os participantes ficaram quase igualmente divididos sobre se a IA reduziu as oportunidades de aprendizado prático (hands-on) no ambiente de trabalho: 37% disseram que sim, e 36% disseram que não, uma diferença dentro da margem de ambiguidade estatística, mas que ainda assim expõe uma preocupação real para uma parcela grande da força de trabalho.
Por outro lado, há um consenso mais forte em relação às competências fundamentais: 62% dos participantes não acreditam que a IA tenha reduzido a necessidade de habilidades básicas de cibersegurança, contra apenas 26% que acreditam que sim. Isso reforça a importância contínua do conhecimento técnico e da validação de competências fundamentais por meio de educação formal e certificações, mesmo em um cenário no qual ferramentas de IA se tornam cada vez mais presentes no dia a dia profissional.
Preocupações e riscos: confiança excessiva no centro do debate
Praticamente todos os participantes da pesquisa do ISC2 expressaram algum nível de preocupação com os potenciais impactos de sistemas de IA mais autônomos ou autodirigidos nas operações de segurança. Os níveis mais altos de preocupação apontados foram:
- Confiança excessiva (over-reliance) em recomendações de IA: 62%
- Erros não detectados que poderiam se propagar rapidamente pelos sistemas: 61%
- Redução do julgamento humano em pontos críticos de decisão: 56%
- Falta de clareza sobre a responsabilização (accountability) por resultados envolvendo IA: 47%
- Dificuldade de explicar ou justificar decisões influenciadas por IA: 39%
O que se pode concluir a partir dos números é que os profissionais de cibersegurança incorporaram a IA em seu cotidiano, mas permanecem cautelosos. E com razão, como mostram os dados sobre responsabilização apresentados a seguir.
Responsabilidade e pressão na tomada de decisão
Quando uma ação recomendada por IA resulta em um desfecho incorreto, quem responde por isso? Segundo o estudo, metade dos participantes (50%) disse que, em sua organização, os tomadores de decisão humanos são responsabilizados em última instância. Outros 21% relataram que a responsabilização varia conforme a gravidade do problema, enquanto 10% relataram ambiguidade e 8% relataram ausência de propriedade clara sobre o erro quando as recomendações de IA falham. Pouco mais de 10% ainda não haviam presenciado uma recomendação de IA que levasse a um resultado incorreto, o que significa que 9 em cada 10 profissionais (89%) já vivenciaram, em suas organizações, situações em que recomendações de IA geraram desfechos equivocados.
Essa preocupação com resultados de IA parece justificada também pela forma como os profissionais são orientados a agir sobre esses resultados. Quase um quarto dos participantes (24%) disse ser solicitado a agir com base em resultados gerados por IA com frequência ou muita frequência, mesmo sem compreender plenamente como esses resultados foram produzidos. Outros 40% relataram que isso ocorre apenas às vezes. Pouco mais de um terço (36%) disse nunca ou raramente ser solicitado a agir dessa forma.
O relatório “Work AI Index 2026”, da Glean, detalha como os funcionários tendem a transferir a carga mental para a tecnologia, conforme a alternância entre ferramentas e o próprio trabalho ampliam o custo cognitivo. “Eles delegam mais de seu raciocínio e julgamento à máquina. Começam a buscar atalhos. Deixam de conferir os resultados, verificar fontes e questionar se as recomendações da IA fazem sentido”, cita o documento. A Glean descreveu esse processo como uma “perda gradual de autonomia”, e não como uma decisão isolada e equivocada. “Primeiro, os trabalhadores deixam de compreender plenamente o resultado gerado”, apontou o relatório. “Depois, param de questioná-lo. Por fim, deixam de se sentir responsáveis por ele.”
A tendência dos profissionais que abriram mão dessa autonomia é de culpar a IA por problemas no trabalho ou quando algo dá errado e que poderia ser evitado com supervisão humana. Pelo menos 28% dos usuários de IA atribuíram à tecnologia a responsabilidade por resultados insatisfatórios.
Ainda na linha de responsabilidade, uma pesquisa publicada recentemente na Harvard Business Review aponta que os funcionários raramente transmitem os resultados da IA literalmente. Eles acabam mascarando, amplificando ou complementando os resultados da IA, dependendo de como foi implementada. Isso acontece porque, em muitos casos, os profissionais da linha de frente não são responsáveis pelo que é pedido à IA e não compreendem totalmente o processo. Os pesquisadores concluem que as empresas “precisam ajudar os trabalhadores a desenvolver novos papéis interpretativos, manter um olhar crítico e transformar a explicabilidade de uma mera exigência de conformidade em uma fonte de aprendizado e de melhores decisões em toda a organização”.
O impacto da IA no estresse relacionado ao trabalho
A IA é frequentemente promovida como uma ferramenta capaz de tornar profissionais de cibersegurança mais produtivos, eficientes e eficazes. As equipes estão sendo incentivadas (ou obrigadas) a incorporar ferramentas de IA em suas atividades diárias. Embora essas tecnologias tragam benefícios claros e importantes, a adoção acelerada também se torna uma fonte de estresse no ambiente de trabalho.
O estudo do ISC2 mostra que, à primeira vista, o efeito é positivo: 48% dos entrevistados relatou que o uso de IA diminuiu seu estresse relacionado ao trabalho no ano passado. Cerca de 32% disseram que a IA aumentou seu estresse, e outros 21% não perceberam mudança alguma nesse aspecto.
Uma análise mais detalhada do relatório mostra que essa divisão está muito ligada à forma como a IA afetou a carga de trabalho de cada participante. Aqueles que relataram aumento de estresse são bem mais propensos do que os que relataram redução de estresse a terem passado mais tempo decidindo quando confiar ou agir com base em recomendações de IA (76% contra 57%) e revisando ou validando saídas de IA (74% contra 57%). Em contraste, os participantes com estresse reduzido são bem mais propensos a dizer que a IA reduziu o tempo gasto nessas mesmas tarefas. Essa divisão também se reflete no grau de preocupação com sistemas de IA mais autônomos. Entre quem teve aumento de estresse, os níveis de preocupação foram consistentemente mais altos:
- Confiança excessiva em recomendações de IA: 71% (contra 56% entre os que tiveram redução de estresse)
- Erros não detectados com potencial de escalar rapidamente: 70% (contra 57%)
- Redução do julgamento humano em decisões críticas: 63% (contra 53%)
- Falta de clareza sobre responsabilização: 59% (contra 43%)
- Dificuldade de explicar decisões orientadas por IA: 45% (contra 36%)
Há também uma relação evidente entre o aumento do estresse e a exigência de agir sobre recomendações de IA não verificadas. Profissionais com estresse elevado relataram, com mais frequência, serem solicitados a agir sobre resultados de IA sem compreender plenamente como foram gerados (34% contra 23% entre os que tiveram redução de estresse). Já os participantes com estresse reduzido (16%) ou estável (18%) foram mais propensos a dizer que nunca enfrentaram esse tipo de exigência, em comparação com apenas 9% entre os que tiveram aumento de estresse.
As percepções sobre o impacto de longo prazo da IA nas carreiras também variam conforme o nível de estresse. Os entrevistados que relataram níveis reduzidos de estresse se mostraram muito mais otimistas quanto à criação de novas oportunidades de trabalho na cibersegurança pela IA (59% contra 46% entre os que tiveram aumento de estresse) e foram mais propensos a se sentir positivos quanto às perspectivas de carreira de longo prazo (59% contra 39% entre os que tiveram aumento de estresse e 37% entre os que não perceberam mudança).