Governança é – ou deveria ser – o que sustenta uma organização. No entanto, passou a ser percebida com certa desconfiança, em partes por conta dos vícios que reduzem seus preceitos a mera burocracia, em outras pelos incontáveis escândalos envolvendo fraudes e práticas administrativas duvidosas que passaram a tomar o noticiário. O fato é que o conceito e as bases da governança precisam ser revistos, de forma que ela seja uma ferramenta de real enfrentamento dos desafios da organização.
Esse foi um dos temas aprofundados durante o Eatech Conference, encontro das lideranças de TI de importantes empresas do País, que ocorreu em março e do qual fui convidado a participar como painelista e palestrante. No estudo sobre governança 5.0, me dediquei a investigar o que caracteriza e motiva essa evolução, e o que ela pede dos líderes de tecnologia. E essa análise me reconduziu às bases da governança, que começou a ser estruturada de forma mais disciplinada no início dos anos 1990. A partir daí, foi possível estabelecer uma reflexão sobre o que é necessário para enfrentar o momento atual.
O resultado dessa investigação foi extremamente proveitoso e compartilho os principais pontos dela a seguir.
Uma escada de degraus irregulares
Se a governança chegou à sua versão 5.0, é porque ela passou por versões anteriores. Cada nova instância trazia consigo o legado da anterior, refinando o que já existia e expandido gradativamente a visão para incluir novos temas:
- Governança 1.0: o foco era a preocupação dos acionistas em obter controles para garantir a conformidade das operações da empresa e seus interesses primordiais. Com alguma licença poética, podemos dizer que a governança 1.0 se tratava, praticamente, de uma evolução de uma auditoria;
- Governança 2.0: essa versão passou a contemplar uma estruturação dos processos, unindo a visão macro (como a empresa deve ser conduzida) com a micro (a confiabilidade das operações);
- Governança 3.0: aqui começou-se a abrir o leque para a estratégia e os temas que estão inevitavelmente associados a ela, como posicionamento de mercado, competitividade, manutenção de share, possível expansão, etc;
- Governança 4.0: o olhar se torna mais abrangente, finalmente levando em conta os stakeholders – clientes, fornecedores, e a sociedade como um todo. É aqui que o ESG se estabelece, como um reflexo das intenções essenciais desse novo modelo.
Essa é uma história com êxitos e legados positivos, e também com falhas e algumas promessas não cumpridas. O ESG talvez seja o melhor exemplo: nasceu a partir de um propósito nobre, mas aos poucos começou a se deturpar em meio a vícios corporativos que os modelos anteriores tampouco conseguiram eliminar – falo sobre isso em outro artigo, “A falha essencial das políticas de ESG”.
Dessas lições e revisões críticas nasceram as bases para o que pode ser um modelo mais abrangente e eficaz de garantir a lisura, o crescimento saudável e o impacto positivo das organizações.
Eis a governança 5.0
Nessa nova “encarnação”, a governança se ocupa de tudo o que já fez parte de seu leque, mas abre espaço para entender que aquilo que acontece internamente está conectado ao que ocorre para além dos muros da empresa. É um olhar voltado para o ecossistema e a sociedade, considerando o propósito da organização e a integração entre tecnologia e aspectos humanos.
Estão incluídas neste olhar a cadeia de valor, a cadeia de suprimentos e as comunidades impactadas. A ideia é favorecer, compreender e assegurar a convergência entre o propósito que originou e motiva a empresa e as pessoas que fazem parte dela,, bem como aquelas que, de alguma forma, são por ela afetadas. E em meio a isso tudo, a abordagem da governança deve se direcionar também aos elementos tecnológicos (IA, big data, IoT), garantindo que eles sejam empregados para legitimar o propósito da organização.
Ou seja: assegurar a saúde financeira da empresa é crucial, mas ela não pode estar desvinculada dos custos e dos impactos envolvidos em atingir esses resultados. É por isso que a governança 5.0 se propõe a entregar o que ESG deveria ter conseguido e não o fez, ao mesmo tempo que atua para garantir que a empresa tenha condições de enfrentar a pluralidade de desafios atuais.
É evidente que esse modelo não é algo consolidado, e sim uma proposição, ainda em desenvolvimento e que exige proatividade e urgência das empresas para que seja consolidada. Nesse caminho, certamente serão necessários ajustes de rota e experimentações, mas o direcional está claro – assim como está claro que a tecnologia desempenha papel decisivo no sucesso desse novo modelo.
Sim, o CIO precisa agir
A TI e seu líder entram nessa história gerenciando a aplicação e integração de tecnologias que proporcionam avanços substanciais para o negócio. De forma prática, podemos dizer que cabem a eles as seguintes ações:
▪ Projeção de cenários de riscos e de crescimento com base na adoção de novas ferramentas (vide a IA, por exemplo);
▪ Decisões táticas e estratégicas com base em dados e correlações de dados;
▪ Estabelecimento da cibersegurança como um pilar estratégico, juntamente com as questões técnicas de proteção e continuidade das operações;
▪ Apoio à decisão e à reputação da marca;
▪ Suporte ao conceito de “conselho digital” em parceria com outras áreas da empresa (entenda-se “conselho digital” como um grupo capaz de acompanhar o desempenho da organização em “tempo real”, algo como um painel de controle que suporta as discussões e decisões do conselho).
A TI deve ser capaz de entender como as áreas e o negócio tomam decisões, avaliando – ou mesmo propondo – modelos para facilitar esses processos. Porém, agilidade, segurança e eficiência não devem ser os únicos resultados almejados; a entrega precisa contemplar também impacto positivo na sociedade e no meio ambiente, devolvendo à natureza mais do que é retirado dela.
Conquistas duradouras
De certa forma, a governança 5.0 se propõe a levar a tecnologia para fora da empresa não apenas como um recurso que melhore a relação com seus públicos e suas operações, mas principalmente como uma alavanca para um mundo melhor. Nesse sentido, a TI deve acompanhar, e até propor, iniciativas de responsabilidade socioambiental. Mais que tudo, deve liberar o potencial humano, e não substituí-lo ou controlá-lo. É nesse sentido que a tecnologia se estabelece como uma “ferramenta de produtividade”.
Todos os preceitos e premissas que integram essa nova proposição de governança visam, ao fim, garantir e legitimar o propósito e a contribuição da empresa para seus stakeholders e para a sociedade. O modelo de “lucro a qualquer custo” tem se revelado danoso e precisa ser interrompido, antes que esse custo se torne impagável.
É desafiador? Sem dúvida, e exige trabalho. Mas é um modelo pelo qual vale a pena se esforçar, e uma causa pela qual vale a pena lutar.