The Shift

Fomento à inovação: há dinheiro, faltam projetos

Você tem uma boa ideia. Um algoritmo que reduz o consumo de energia da fábrica, um modelo de IA que avisa quando uma máquina vai quebrar, um produto que ainda não existe no mercado. E acha que só um fundo de venture capital pode financiá-la, ou que os fundos públicos de fomento à inovação são tão burocráticos ou focados na pesquisa científica que nem vale a pena tentar.

Os números dizem outra coisa. Entre 2023 e 2025, BNDES e Finep aprovaram R$ 71,5 bilhões em crédito para projetos de inovação, mais de quatro vezes o volume dos quatro anos anteriores. O FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), principal fundo público brasileiro voltado ao financiamento da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no país, tem R$ 17,7 bilhões em 2026, metade para crédito (barato) e metade para recursos não reembolsáveis. A Lei do Bem, que reduz impostos de quem investe em pesquisa, alcançou 4.598 empresas e R$ 65,7 bilhões em P&D no ano-base 2025. Só para inteligência artificial, BNDES, Finep e Embrapii somam R$ 10,5 bilhões em apoio desde 2023.

O dinheiro está na mesa. O problema é chegar até ele, e é nesse trecho do caminho que trabalha Marina Loures, diretora de inovação e transformação digital da ABGI Brasil, consultoria especializada em apoiar empresas na captação de recursos e incentivos para pesquisa e desenvolvimento. Marina se dedica a desembaraçar os fios para conectar empresas e agências de fomento. Porque o recurso existe, diz ela, mas nem sempre chega às pessoas certas. O diagnóstico que ela traz de quem oferece o recurso é incômodo: “o que ouvimos dos órgãos é que não chegam bons projetos, não chega documentação correta, não chega parceria correta, como se as empresas sequer lessem o edital.”

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No dia 27/10, em São Paulo, Marina participou de um debate sobre fomento à inovação no ABES Summit 2026, ao lado de quem opera o dinheiro: Luiz Sérgio Utino, gerente do departamento de TIC da Finep, Túlio Oliveira, líder de programas prioritários da Embrapii, e Sérgio Rossi, especialista em investimentos estrangeiros da Apex Brasil, com mediação de Jamile Sabatini-Marques, diretora de inovação e fomento da ABES. Da conversa saiu um mapa razoavelmente claro de por onde começar e do que evitar.

Siglas demais

Para quem olha de fora, o sistema de fomento parece um labirinto. “São muitas siglas, muitos nomes”, reconhece Marina. Finep, Embrapii, BNDES, FAPs, Lei do Bem, subvenção, crédito descentralizado. A reação mais comum, segundo ela, é desistir antes de entrar. A percepção é de que “é muito difícil, é muito burocrático, eu não vou nem começar.” Para Marina, o primeiro gargalo a vencer não está nas agências, está na cabeça de quem empreende.

A saída que ela propõe é começar pequeno. Olhar para o roadmap estratégico da companhia, escolher um projeto que faça sentido para os próximos um ou dois anos e tratar a primeira submissão como aprendizado. Um quick win, nas palavras dela.

Para empresas no regime de tributação por lucro real, a porta de entrada mais simples é a Lei do Bem. O incentivo vale para qualquer setor, é automático e não depende de edital. Mas Marina destaca um aprendizado valioso, embora menos óbvio: para usar a lei, a empresa precisa registrar as horas, as despesas e os pesquisadores dedicados a P&D, e é exatamente o tipo de prática que órgãos de fomento como Finep, Embrapii, BNDES ou Fapesp vão exigir depois. Quem aprende a controlar isso na Lei do Bem, chega aos editais com parte do trabalho feito.

O painel apontou que há vantagem em conectar as diferentes oportunidades ao longo da jornada. Jamile Sabatini-Marques usou a imagem de uma escada. Para quem ainda nem tem CNPJ, há o programa Centelha. Depois vêm as linhas de desenvolvimento, o crédito e, mais adiante, a exportação. E subir os degraus em sequência conta a favor: segundo ela, Finep e Embrapii olham com bons olhos a empresa que mostra essa trajetória.

Cada fase, um instrumento

O passo seguinte é entender que cada linha de fomento foi desenhada para um momento do projeto. “Cada edital tem o seu propósito”, diz Marina. Um serve para desenvolver internamente; outro é de inovação aberta e exige um instituto de ciência e tecnologia ou uma startup como parceira. Casar o momento da empresa com o tipo de recurso disponível é boa parte do trabalho de desembaraçar os fios.

Túlio Oliveira, da Embrapii, reforçou o ponto. O erro mais comum, segundo ele, é perguntar qual agência dá mais vantagem ou tem a melhor taxa. “Não estamos disputando entre nós. Somos complementares.” A pergunta certa é em que fase está o projeto. Se ainda é pesquisa, talvez o caminho seja uma fundação estadual de amparo à pesquisa. Se é desenvolvimento tecnológico com prazo curto, a Embrapii, que trabalha sem edital e divide o custo entre a empresa, a própria Embrapii e um centro de pesquisa credenciado. Para uma planta-piloto, com compra de equipamentos, a Finep. Para ganhar escala, o BNDES.

Nada impede combinar. Um projeto da Embrapii pode usar crédito subsidiado da Finep e ainda aproveitar a Lei do Bem. O porte também muda o endereço: na Finep, explicou Luiz Utino, empresas com faturamento abaixo de R$ 90 milhões buscam o crédito descentralizado, operado por agentes como Sicoob, Sicredi e BTG; acima disso, o crédito direto, para projetos a partir de R$ 30 milhões. Na Embrapii, segundo Túlio, o subsídio não reembolsável fica em torno de 50% para grandes empresas e pode chegar a 80% ou 90% para micro e pequenas, em parceria com o Sebrae.

O que derruba um projeto

Se a paralisia é o primeiro erro, o segundo é o oposto: a pressa. Marina descreve a cena: sai o edital, a empresa corre para montar o projeto e submete, sem perguntar se aquilo serve à sua estratégia. “Não adianta nada enviar um projeto e ser aprovado” se, depois, a empresa não assina porque o projeto não era o que o negócio precisava. Acontece. Para ela, os editais são úteis para mostrar onde o governo está apostando, mas a decisão de concorrer tem de partir do roadmap da empresa, não do calendário da agência.

Depois vêm os tropeços de execução, os mesmos que os órgãos relatam a ela: documentação incompleta, parceria inadequada, proposta que não conversa com o objetivo da chamada. Muitos editais da Finep exigem uma instituição de ciência e tecnologia no projeto, e essa parceria não se constrói na véspera. Por isso, Marina recomenda não ir sozinho: consultorias e os próprios institutos de pesquisa conhecem o processo e podem fazer esse caminho com a empresa.

Há ainda o erro de conteúdo. O próprio MCTI lista, na página da Lei do Bem, falhas que levam à recusa de projetos: apresentar como inovação o uso de tecnologias já dominadas pelo mercado, ainda que sejam novidade para a empresa, ou descrever desafios de mercado no lugar de desafios tecnológicos. Jamile sugeriu um teste: tratar o projeto de fomento com o mesmo cuidado de uma venda a um grande cliente e, antes de enviar, entregá-lo a alguém que não é técnico. Se essa pessoa entender, o texto está no caminho.

Nem sempre dá para tirar dúvidas com quem avalia. Utino lembrou que, na subvenção – recurso não reembolsável e disputado em concorrência –, a equipe da Finep não pode discutir o projeto com a empresa. No crédito, pode. “Converse com a gente.”

O relógio

A inteligência artificial evolui em ciclos de meses, lembrou Jamile, e o fomento ainda corre atrás. Utino contou que a Finep trocou, desde 2023, as chamadas tradicionais de subvenção pelo fluxo contínuo, em que é possível ressubmeter a proposta e quem chega primeiro é analisado primeiro. O exemplo que ele deu – um projeto enviado em maio e contratado em outubro – mostra o avanço e também o tamanho da espera. A consequência prática é simples: ter o projeto pronto antes de a janela abrir.

E o venture capital?

Ele continua no jogo e de olho no Brasil. Sérgio Rossi, da Apex, conta que os investidores corporativos estrangeiros que a agência recebe todo ano na conferência Corporate Venture in Brasil queriam saber, até pouco tempo atrás, de transição energética. Desde o fim de 2024, chegam com outra pergunta: o que o Brasil tem de inteligência artificial?

O conselho dele vai na mesma linha do de Marina: conhecer quem está do outro lado. O fundo de venture capital olha para o retorno financeiro e potencial de crescimento. O corporate venture capital, braço de investimento de uma grande empresa, olha para o ganho estratégico. Para os dois, Rossi recomenda ter três apresentações prontas – uma de um minuto, para o encontro casual; uma de cinco, para o palco; e uma aprofundada, para a reunião – e insistir. Ele lembrou o “anti-portfólio” da gestora americana Bessemer, que exibe empresas como Apple, Airbnb e Google, recusadas pelo fundo quando ainda eram pequenas. “Os investidores também erram.”

Fomento público e capital de risco, portanto, não são caminhos excludentes. BNDES e Finep acabam de selecionar a gestora de um fundo dedicado a startups de IA, com capital mínimo de R$ 160 milhões.

Noventa dias

Para quem quer sair do lugar, Marina deixa um roteiro curto. Listar os projetos executados neste ano e os previstos para o próximo. Cruzá-los com as linhas disponíveis – o guia de fomento da ABES reúne boa parte delas. Escolher um ou dois e começar a controlar horas, despesas e custos com terceiros. O calendário ajuda: as linhas da Finep devem sair no início do ano, a Embrapii opera em fluxo contínuo e a Lei do Bem permite recuperar os gastos de P&D de 2026. Túlio acrescenta um conselho: circular pelas instituições de pesquisa antes mesmo de ter um projeto pronto, até para se inspirar no que já está sendo feito. O que separa a empresa do dinheiro, muitas vezes, não é a qualidade da ideia, mas a capacidade de transformá-la num projeto bem amarrado. “O importante”, resume Marina, “é escrever o primeiro projeto e começar.”


GUIA DE FOMENTO

 

“Mas onde estão as oportunidades?”, é a pergunta que empresas iniciantes podem fazer quando o assunto é financiamento à inovação. Há dezenas de editais e ofertas no mercado, mas nem sempre tão fáceis de encontrar. “Eu, que sou diretora de inovação e fomento, não conheço tudo o que tem”, comentou Jamile Sabatini-Marques, ao explicar a origem do “Guia de Fomento à Inovação para o Setor de TIC ABES/ABGI”, um projeto que nasceu dessa dor, em 2018, e que acaba de ganhar uma nova edição em 2026.

O guia é resultado de uma parceria entre a ABES e a ABGI. Ele começou como um PDF, virou planilha de Excel e hoje é um painel interativo em Power BI, atualizado semanalmente pela ABGI. Nesse momento, é possível encontrar 67 linhas – entre crédito, recursos não reembolsáveis e incentivos fiscais – oferecidas por Finep, BNDES, Embrapii e fundações estaduais de amparo à pesquisa.

A nova edição abrange linhas para TI, Saúde, Agronegócio e Cidades Inteligentes. Cobre todo o ciclo de um projeto, do curto ao longo prazo, feito pela própria empresa ou em parceria com institutos de pesquisa, startups e outras empresas. E traz informações sobre o “mix de fomento”: a combinação de diferentes fontes num mesmo projeto. O acesso é gratuito e aberto a qualquer empresa. Associados da ABES contam com orientação da entidade para identificar as linhas mais adequadas a seus projetos.