The Shift

Figma: o software “que as pessoas querem pagar”

Existe o software que a gente precisa pagar e o software que a gente quer pagar. O comentário, feito por um usuário brasileiro no vídeo de uma entrevista de Débora Mioranzza, head da América Latina do Figma, resume melhor do que qualquer relatório de analista a tese de negócio que o Figma levou à Bolsa de Nova York (NYSE), quando lançou seu IPO em 31 de julho de 2025. Em um mercado em que boa parte das ferramentas corporativas é tolerada como custo fixo, a plataforma de design colaborativo na nuvem, usada por equipes de design, produto e engenharia, construiu algo raro em SaaS: uma base que usa o produto por escolha, defende a marca por conta própria e diz à empresa, com insistência, o que ela deve construir em seguida. São mais de 13 milhões de usuários ativos mensais no mundo, e o Brasil é um dos cinco maiores mercados globais.

Os números mostram que essa relação tem tradução financeira. Na estreia do IPO, as ações abriram a US$ 33, e a empresa captou cerca de US$ 1,2 bilhão, atingindo um market cap próximo dos US$ 20 bilhões que a Adobe havia oferecido em 2022, num negócio abandonado no fim de 2023 diante da resistência de reguladores europeus e britânicos. Em setembro de 2026, pouco mais de um ano após a abertura de capital, o market cap do Figma é de US$ 10,78 bilhões e suas ações são negociadas a US$ 20,25. A mudança de patamar combina o arrefecimento do hype do IPO com o humor dos analistas de Wall Street, que continuam perguntando se agentes e ferramentas de vibe coding vão tornar o SaaS obsoleto.

O Figma responde crescendo mais rápido, não mais devagar. O balanço mais recente, do segundo trimestre de 2026 (abril a junho), mostra receita de US$ 370,1 milhões, 48% acima do mesmo período de 2025 — e o ritmo de crescimento vem aumentando há três trimestres seguidos. Quem já é cliente também amplia o uso: entre as empresas com mais de US$ 10 mil em receita anual recorrente, as que já estavam na base um ano antes passaram a gastar, em média, 36% mais. Com isso, a companhia elevou a previsão de receita para 2026 para até US$ 1,467 bilhão.

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O que começou em 2012 como editor de interfaces colaborativo no navegador virou uma plataforma com Figma Design, Dev Mode, FigJam, Slides, Sites, Buzz (para peças de marketing em escala), Draw (ilustração vetorial) e Make, a ferramenta que transforma um prompt em protótipo funcional. Em outubro de 2025, a compra da israelense Weavy deu origem ao Figma Weave, voltado à geração e edição de imagem e vídeo com IA. Na conferência Config 2026, em junho, vieram o Figma agent, as Code Layers — que levam protótipos com código real para dentro do canvas de design — e a possibilidade de trabalhar direto no código de produção com o Make. A ambição declarada por Dylan Field, cofundador e CEO, é ser “o canvas para a criação full-stack”. A adoção acompanha: em junho, mais de 80% dos clientes com receita anual recorrente acima de US$ 10 mil consumiam créditos de IA toda semana.

O Brasil entra nessa história de um jeito peculiar: chegou ao Figma antes de o Figma chegar ao Brasil. O país já estava entre os cinco maiores mercados da plataforma em usuários ativos semanais quando a empresa anunciou, em maio de 2025, o hub de São Paulo e a versão em português. Em julho de 2026, formalizou o escritório — o primeiro da América Latina — e passou a oferecer hospedagem local de dados, opção que antes existia apenas na União Europeia, na Austrália e na Índia. A decisão mira bancos, governo e setores regulados, sujeitos às exigências da LGPD. A base local já era robusta: no primeiro trimestre de 2026, metade das empresas do Ibovespa desenvolvia produtos no Figma, ante 35% um ano antes.

O combustível dessa expansão se chama Friends of Figma, rede global de grupos locais organizados por voluntários que promovem encontros, trocam boas práticas e divulgam a ferramenta sem receber nada por isso. É o tipo de ativo que muita empresa tenta fabricar com orçamento de marketing e não consegue. Lembra a lógica do Waze, que alimenta seu mapa dos feedbacks dos motoristas. No Figma, a comunidade aponta o caminho do produto — a tradução para o português, por exemplo, nasceu dessa pressão.

Foi sobre essa engrenagem — comunidade, produto e IA — que conversamos com Débora Mioranzza, publicitária de formação que, como ela mesma conta, bateu na porta do Figma no início de 2024 para pedir emprego e saiu de lá com a missão de montar a operação latino-americana. Na visão dela, a IA acelera o como e devolve às pessoas a responsabilidade pelo porquê. Confira a conversa.


O Brasil já estava no top 5 do Figma sem escritório local. O que muda com a presença física e a hospedagem de dados no país — e até onde vão as “grandes ambições”?

“O Brasil chegou antes, a América Latina chegou antes do Figma chegar aqui. Brasil, Argentina, Colômbia e México têm um pool de talentos em tecnologia, design e desenvolvimento muito significativo, e empresas de fora já abriam frentes na região com desenvolvedores que, obviamente, consumiam a melhor tecnologia disponível. A conversa sobre a expansão começou em 2024, mas foi este ano que oficializamos a entrada, com escritório e uma equipe maior para dar suporte.

A hospedagem local faz diferença, sobretudo para os setores mais regulados — bancos, serviços financeiros e governo —, que muitas vezes têm como requisito manter os dados residindo no país, também por conta da LGPD. Hoje nossos maiores clientes na América Latina incluem Caixa, Banco do Brasil, Itaú e Bradesco, além do Serpro. Quando você abre a sua CNH digital ou o Gov.br, aquilo foi construído no Figma.

Não compartilhamos números, mas o Brasil é visto como um país modelo para a região, e a presença aqui já amplia conversas fora do país, com parceiros como o Mercado Livre, que tem forte presença na Argentina e no México. Até o fim do ano, quero sair do eixo dos serviços financeiros. Estamos construindo histórias com a Latam Airlines e com o Einstein, que tem uma experiência digital enorme, inclusive em pesquisa. Imagine um médico prototipando uma ideia a partir de uma mensagem. O sucesso, para mim, é trazer essas histórias para o palco no próximo ano.”

O Figma tem um fã-clube. Como uma comunidade que se organiza sozinha vira ativo de negócio?

“Muitas empresas tentam criar comunidade. Eu trabalhei em várias que tentaram. O Friends of Figma é diferente porque são os próprios usuários que se dão suporte: voluntários criam comunidades locais para aprender e compartilhar boas práticas, encontram tempo na agenda para organizar eventos e falar do Figma. Quando cheguei e vi isso, pensei: tem muita coisa boa para transformar, porque agora essa comunidade precisa de um apoio local.

Gosto da comparação com o Waze, porque ele depende da comunidade para melhorar. Soluções de SaaS também dependem de alguém que escute quem está na rua usando o produto. A versão em português e espanhol, quando antes só havia inglês, veio porque alguém chegou aqui e disse: “Eu preciso disso”. O usuário não pode depender de um idioma para usar bem a ferramenta. Isso não foi a IA que falou. Foi uma pessoa. Por isso, sempre que alguém me conta que fez algo diferente com o Figma, a minha resposta é: ‘Conta mais’.”

Vocês falam em role blending, a diluição das fronteiras entre design, produto e engenharia. Como a IA, e o Figma Make, em particular, mudam o trabalho desses times?

“A colaboração passa a ser inegociável no desenvolvimento de produto. Com o Figma Make, um PM ou até o presidente da empresa pode chegar com uma ideia já materializada em protótipo. Isso democratiza o acesso, mas a régua do design sobe: o designer precisa refinar, criticar e dar direção ao que foi construído por uma IA. O desenvolvedor também usa o Make para validar ideias. Antes, era comum chegar um protótipo e o dev dizer: “Não existe tecnologia para fazer isso”. Essas barreiras começam a cair.

O caso do Itaú mostra o que isso significa na prática. Pela primeira vez, segundo o banco, foi possível construir um protótipo para testes com pessoas com deficiência visual. Antes, esse público não participava dos testes, porque montar o protótipo exigia horas caras de desenvolvimento, que raramente viravam prioridade. Existem muitos apps que são acessáveis, mas não acessíveis. O time criou no Figma Make, primeiro, uma solução para melhorar os prompts; depois, o protótipo em si. O custo de prototipação caiu 95%, porque não havia engenharia envolvida nessa etapa. Agora estão reestruturando os times de pesquisa para incluir pessoas com deficiência visual — estamos falando de mais de 7 milhões de pessoas no país. [Segundo o Censo 2022 do IBGE, 7,9 milhões de brasileiros têm dificuldade de enxergar, mesmo com óculos ou lentes.]

Isso não significa que as funções vão deixar de existir. O dev ainda valida o código; o designer ainda valida o protótipo. Falamos muito da mentalidade de builder, seja você PM, designer ou desenvolvedor. A pergunta muda de “como fazemos” para “por que fazemos”. O “como” a IA já está ajudando a resolver. O “porquê” — por que colocar esse aplicativo na rua, qual o impacto dele — é conversa de negócio.”

Hoje qualquer pessoa pode fazer um aplicativo com uma ferramenta genérica de vibe coding. Onde está a diferença para o Figma — e quem, além dos designers, passa a usar a plataforma?

“Pesquisas mostram que o número de aplicativos construídos subiu muito. O que começa a cair é a usabilidade, porque as perguntas que deveriam ser feitas não estão sendo feitas.

Uma ferramenta de vibe coding que não está conectada à sua fonte da verdade — o código validado no GitHub, o design system, a linguagem de marca que já passou por uma roda de pessoas avaliando — gera resultados parecidos com os de qualquer outra. É aquele roxinho-azulzinho de sempre. No fim, você não pode colocar na rua um produto sem a marca e os componentes mínimos do iFood, por exemplo. Então vai refazer, e a velocidade some no retrabalho. Esteira desconectada cria silos. Quando está tudo no Figma, a colaboração vira o core, porque outros times estão trabalhando no mesmo lugar ao mesmo tempo.

E o Make não serve só para apps que vão para a rua. Alguém de compras pode criar uma solução para gerenciar contratos, com datas de vencimento e o que falta negociar. Tem sido muito usado para dashboards de BI que se conectam à base de dados e funcionam em tempo real — algo que antes levaria duas ou três semanas. Não depende de designer nem de dev; depende de quem conhece o problema no dia a dia. E, por ser uma solução Enterprise, traz os guardrails para garantir que esse conteúdo fique dentro da empresa.”

As empresas de IA viraram um canivete suíço e o mercado discute se o SaaS morreu. Como o Figma usa a IA para reforçar seu moat — e onde ficam as pessoas nessa equação?

“Prototipar um aplicativo não significa que ele está pronto para ir para a rua. Há validações técnicas de segurança, suporte, capacitação dos clientes, adoção, melhoria contínua com times dedicados a ouvir feedback. A IA não foi feita para matar o SaaS.

Acho que estamos num momento de hype. Colocamos muita velocidade em tudo, e é hora de dar um passo para trás e perguntar onde a velocidade precisa estar. A IA vem para trazer velocidade e baixo atrito, não julgamento humano. Ela não julga; executa. E o julgamento humano é extremamente importante em qualquer área em que você coloque IA — produto, design, RH, onde for. Quais perguntas eu preciso fazer? Essa experiência está boa? Esse produto precisa existir?

O ganho está no tempo que se libera. Ao tirar as tarefas repetitivas, você reserva tempo para pensar. Por isso acredito que a qualidade dos profissionais numa esteira de construção de produto vai subir muito: o perfil deixa de ser só executor e passa a ser crítico, de quem entende o negócio. É esse olhar, com escuta ativa ao lado do usuário, que garante uma solução segura, que entrega o que ele precisa hoje e antecipa o que vai precisar amanhã. Isso não é uma IA que vai substituir.

Não acredito em um moat específico além de três coisas: foco na comunidade, na colaboração e na melhoria constante do produto — como as Code Layers, que trazem código validável para dentro do canvas.

O bom gosto do designer continua insubstituível. Gosto da história do Nubank: quando decidiram que o cartão seria roxo, a reação foi: “Como assim, não existe cartão de banco roxo?”. E foi exatamente por isso que ele foi roxo. Quem fez essa escolha? Isso é design, é experiência do usuário. A não ser que a gente passe a vida numa tela preto e branco, o julgamento humano continua necessário. As habilidades técnicas, a IA e profissionais que aprendem rápido resolvem. O que muda é que você passa a trabalhar para ganhar ou aprimorar as habilidades humanas. Não vejo, nem hoje nem no futuro, um momento em que o humano saia por completo dessa interação.”