Os IPOs de US$ 1 bilhão ou mais já respondem por 81,2% de todo o valor de saída de venture capital em 2026, ante 34,8% em 2025. É uma concentração sem precedentes, como aponta o relatório “Venture Monitor” (Q2 2026), do Pitchbook em parceria com a National Venture Capital Association (NVCA). Na série histórica iniciada em 2016, o Pitchbook faz uma análise e um alerta: os dez maiores unicórnios ainda privados devem gerar US$ 843 bilhões em valor de saída com um “step-up” de 40% no IPO. Só que, até agora, nenhuma das startups sinalizou que será a próxima a abrir capital, e o funil de IPOs em registro é limitado.
A lista de maiores unicórnios privados é liderada por Anthropic (US$ 1,0142 trilhão, probabilidade de IPO em um ano de 76,9%) e OpenAI (US$ 905,2 bilhões, 89,2%), seguidas por Stripe (US$ 168,9 bilhões), Databricks (US$ 146,9 bilhões), Waymo (US$ 138,5 bilhões) e Anduril Industries (US$ 63,9 bilhões).
O mercado de capital de risco norte-americano bateu recordes históricos em quase todas as métricas possíveis: captação, valor de saída, valuations, dívida. Ao mesmo tempo, deixou a maior parte de seus participantes de fora da festa. O que se viu no primeiro semestre de 2026 foi concentração: um punhado de empresas de Inteligência Artificial, uma dezena de gestoras e uma única operação de abertura de capital respondem por parcelas desproporcionais de tudo o que se moveu no setor.
O evento que resume o semestre é a SpaceX. A empresa de Elon Musk fez o maior IPO da história, avaliado em US$ 1,7 trilhão, dezessete vezes maior que a segunda maior abertura de capital de uma empresa norte-americana apoiada por venture capital já registrada. Antes disso, no primeiro trimestre, a SpaceX havia anunciado a compra da xAI por US$ 250 bilhões, a maior aquisição de uma empresa apoiada por VC de todos os tempos, e, na sequência, uma oferta de US$ 60 bilhões em ações para adquirir a Cursor, startup de programação com IA de apenas quatro anos. Tudo isso torna a SpaceX aquilo que o relatório chama de “kingmaker” do venture capital em 2026.
Apesar desses números, o mercado não reabriu de fato a janela de liquidez. As distribuições do IPO da SpaceX e das eventuais aquisições da xAI e da Cursor devem alcançar uma base de investidores mais ampla do que o normal, mas isso não significa que o amplo mercado de saídas voltou a funcionar. Anthropic e OpenAI já apresentaram pedidos confidenciais de abertura de capital, e, somadas ao IPO da SpaceX, essas três operações devem gerar mais valor do que todas as saídas de empresas apoiadas por venture capital nos Estados Unidos desde o ano 2000. Só que uma parcela relevante de investidores e de seus cotistas (LPs, limited partners) não verá nenhuma distribuição vinda desses negócios. É o maior exemplo já visto da “lei de potência” do venture capital: poucas saídas excepcionais não fazem, sozinhas, um mercado de liquidez saudável.
O Pitchbook acrescenta ainda que das dez maiores ofertas públicas iniciais de tecnologia dos EUA historicamente (Meta, Rivian, Uber, Coupang, Snowflake, Snap, DoorDash, Warby Parker, Lyft e Robinhood), a maioria não performou bem nos primeiros 12 meses de vida como empresa aberta. Um IPO gigante não garante retorno consistente para quem entra depois do primeiro dia.
Dealmaking: megarrodadas dominam um mercado cada vez mais concentrado
No 1° semestre de 2026, os investidores de venture capital dos Estados Unidos aportaram US$ 412,7 bilhões, um total que já supera o ano inteiro de 2025 (US$ 319,2 bilhões). As megarrodadas (US$ 100 milhões ou mais) responderam por 87,5% desse volume. As rodadas abaixo de US$ 100 milhões somaram apenas US$ 51,4 bilhões, e a fatia desse segmento no total investido vem encolhendo rapidamente: de 43,8% em 2024 para 33,1% em 2025 e apenas 12,5% em 2026.
Somente no segundo trimestre, sete rodadas de US$ 1 bilhão ou mais – Anthropic, Prometheus Industries, Anduril Industries, Baseten, MiRus, Kalshi e Cognition – somaram US$ 87,2 bilhões, cinco delas em empresas de IA. A rodada da Anthropic, de US$ 65 bilhões, marcou um salto de valuation pré-money de 157,1%, de US$ 350 bilhões para US$ 900 bilhões, elevando o valuation pós-money a US$ 965 bilhões, à frente da OpenAI, embora US$ 15 bilhões desse total já estivessem comprometidos antes, o que faz o número amplamente divulgado superestimar o capital novo.
A Inteligência Artificial dominou o mercado quase por completo: o valor investido em empresas de IA somou US$ 355,9 bilhões no semestre, 86% de todo o capital de venture capital do período (ante 65,5% em 2025 e 43,3% em 2016); em número de rodadas, a fatia da IA chegou a 43,2%. As empresas que hoje protagonizam as maiores rodadas privadas caminham para o mercado público: OpenAI e Anthropic com pedidos confidenciais de IPO, e a xAI via aquisição pela já aberta SpaceX, o que deve reduzir o pipeline de megarrodadas no curto prazo, sem sinalizar o fim de captações extraordinárias, já que novos nomes ainda pouco conhecidos devem assumir esse papel.
As financeiras de primeira vez somaram 5.674 negócios no semestre, o que coloca 2026 na trajetória de superar 10 mil empresas levantando sua primeira rodada no ano, de novo um recorde histórico. Os valuations não apenas se recuperaram da correção de 2022–2023, como já superaram os picos de 2021 em todos os estágios. O valuation pré-money mediano mais do que dobrou frente a 2021 em pré-seed, seed e Series D+; a Series C ficou 95% acima do pico de 2021, a Series A 89,9% acima e a Series B 83,3% acima. O motivador é diferente do ciclo de 2021: lá, os juros baixos e a liquidez abundante elevaram valuations de forma generalizada. Agora é a Inteligência Artificial que puxa os valuations mais altos, definindo parâmetros de comparação até para estágios sem relação com IA.
O relatório do Pitchbook alerta que a dependência excessiva de um único tema eleva o risco de uma correção ampla, caso o crescimento ou os retornos da IA fiquem abaixo do esperado. E, pela própria lei de potência do venture capital, mesmo que a IA entregue os resultados esperados, os retornos tendem a se concentrar em um número pequeno de “vencedores”, o que deixa exposta boa parte das apostas feitas em um campo amplo de empresas a preços elevados.
Geograficamente, a concentração aumentou nos polos tecnológicos tradicionais. A Bay Area (São Francisco e arredores) recebeu US$ 492 bilhões em investimentos desde 2025 e, somente no segundo trimestre de 2026, registrou 761 negócios totalizando US$ 98,6 bilhões, muito à frente de Nova York (523 negócios, US$ 11,7 bilhões), Los Angeles (228 negócios, US$ 8,9 bilhões) e Boston (202 negócios, US$ 5,1 bilhões). Os quatro principais polos concentraram 87% de todo o valor investido no trimestre, chegando a 96,8% no estágio de venture growth. Segundo o PitchBook, é um reflexo da escassez de talento capaz de construir na fronteira da IA, concentrado na Costa Oeste.
Inteligência Artificial atrai 86% do capital
A Inteligência Artificial é o tema que atravessa cada seção do relatório. O valor investido em startups de IA saltou de US$ 12,3 bilhões em 2016 para US$ 355,9 bilhões no semestre, mesmo com “apenas” 3.258 negócios (frente a 6.827 em todo o ano de 2025), o valor por rodada disparou. Os saltos de valuation medianos em rodadas de IA chegaram a 2,2 vezes em 2026, contra 1,6 vez fora do setor. Nos valuations pré-money medianos do ano, as empresas de IA valem
- Série A: US$ 83,0 milhões ante US$ 44,0 milhões fora da IA
- Série B: US$ 267,0 milhões ante US$ 134,0 milhões
- Série C: US$ 648,0 milhões ante US$ 397,6 milhões
- Série D ou acima: US$ 4,25 bilhões (ante US$ 644,0 milhões, quase sete vezes mais no estágio mais avançado.
As empresas de IA também têm taxa de retorno ao mercado muito mais alta: entre as companhias que levantaram sua primeira rodada, uma fatia bem maior das startups de IA consegue captar uma segunda rodada, em comparação com empresas de outros setores, um sinal de que investidores “dobram a aposta” com mais frequência quando o tema é Inteligência Artificial.
Fundraising: recorde nos maiores fundos, seca nos novos gestores
O mercado de captação de novos fundos reproduz a mesma divisão entre topo e base das demais seções do relatório. No 1° semestre de 2026, os fundos levantaram US$ 72,4 bilhões em apenas 405 veículos, um total já próximo do ano inteiro de 2025 (US$ 74,9 bilhões), só que concentrado em bem menos gestoras. Entre janeiro e junho, os fundos de US$ 1 bilhão ou mais captaram US$ 49,5 bilhões em apenas 16 veículos, superando os US$ 27,5 bilhões captados por 13 veículos em todo o 2025. Um pequeno grupo de nomes respondeu pela maior parte do total: Andreessen Horowitz levantou US$ 14,2 bilhões em sete fundos, Thrive Capital captou US$ 10 bilhões em dois fundos e Founders Fund levantou US$ 10,6 bilhões em dois fundos. Juntas, essas empresas levantaram US$ 34,8 bilhões, ou 48,1% de todo o capital captado no semestre.
As gestoras experientes captaram US$ 64,5 bilhões, contra apenas US$ 7,9 bilhões para gestoras emergentes — 89% de participação para as estabelecidas, a maior fatia em uma década. Os fundos de estreia levantaram apenas US$ 3,4 bilhões em 53 veículos, bem abaixo dos US$ 11,4 bilhões captados em todo o ano de 2025. O tempo mediano para fechar um fundo caiu de 15,1 meses em 2025 para 6,4 meses no semestre. Um sinal, segundo o PitchBook, de que os veículos que conseguem fechar hoje são desproporcionalmente os já bem posicionados, enquanto o restante do mercado desacelerou ou parou de tentar captar.
Tendências entre investidores: menos apostas corporativas, mais seletividade
A atividade de investidores não tradicionais – fundos de hedge, gestoras de ativos e corporações investindo diretamente em capital de risco – somou US$ 379,4 bilhões no semestre, mas grande parte está atribuída a poucas companhias, como OpenAI e Anthropic. O venture capital corporativo (CVC) participou de apenas 21,1% dos negócios do semestre, a menor fatia da década, já que corporações preferem manter caixa em balanço para lidar com os custos de infraestrutura de IA em vez de investir em startups.
Os investidores “crossover” (gestoras de ativos, fundos de hedge, mútuos e soberanos que atuam perto de uma saída) ilustram a forma mais extrema de concentração do mercado: participaram de US$ 325,1 bilhões em negócios até o segundo trimestre, mais que o dobro de 2025, mas o número de negócios com sua participação caiu ao menor nível desde 2019. Menos negócios, cada um muito maior, prejudicando a base de empresas em crescimento que dependia desse capital para fazer a ponte até uma saída.
Fundadoras: recorde em valor, mas concentração ainda maior
O capítulo dedicado a fundadoras mulheres traz um dos contrastes mais chamativos do relatório. Em valor, 2026 é um ano histórico: empresas com pelo menos uma fundadora receberam US$ 235,9 bilhões em 1.041 negócios no 1° semestre, ou seja, mais que o dobro do recorde anterior, de US$ 111,3 bilhões em 2025. Esse número, porém, é movido por poucos nomes gigantes: Anthropic, OpenAI e Kalshi, todas com pelo menos uma cofundadora, concentram a maior parte desse total. Como proporção de todo o mercado, empresas com ao menos uma fundadora já representam 57,1% de todo o valor investido em 2026, frente a 34,9% em 2025. Isso representa apenas 13,8% do número total de negócios, uma queda em relação aos 16,2% de 2025.
Já as equipes fundadoras compostas inteiramente por mulheres seguem com participação marginal: receberam apenas US$ 2,9 bilhões em 383 negócios no semestre, apenas 0,7% de todo o capital de venture capital investido, praticamente estável em relação ao histórico e bem distante do pico do grupo “pelo menos uma fundadora”. Do total de financiamentos de primeira vez no semestre, 78,2% foram destinados a equipes fundadoras compostas inteiramente por homens, e o venture growth já responde por 94,3% de todo o valor investido em empresas fundadas por mulheres, puxado pelas megarrodadas de IA.
Dívida de risco: poucos empréstimos, valores recordes
O mercado de dívida de risco (venture debt) espelhou a mesma concentração. O volume emitido no semestre somou US$ 64,7 bilhões, inflado por poucos empréstimos gigantescos, incluindo um refinanciamento de US$ 20 bilhões para a SpaceX, enquanto o número de empréstimos caiu para apenas 280, ante 1.119 em todo o 2025, processo acelerado desde o colapso do Silicon Valley Bank em 2023. A dívida para empresas de tecnologia somou US$ 63,5 bilhões em 256 negócios, e a dívida em estágio de venture growth ultrapassou US$ 54 bilhões no semestre, mais alta que qualquer pico anterior, refletindo a magnitude dos investimentos em infraestrutura de IA. Já a dívida para healthtechs foi bem mais modesta: US$ 3,1 bilhões em 43 negócios.
Exits: um único ano vale mais que a década anterior
A seção de saídas (exit) é dominada, mais uma vez, pela SpaceX. O IPO de US$ 1,7 trilhão gerou, sozinho, mais valor do que todas as saídas de venture capital da década anterior somadas, levantou US$ 75 bilhões e viu sua capitalização ultrapassar US$ 2 trilhões nas primeiras negociações. Somando a aquisição da xAI (US$ 250 bilhões, primeiro trimestre) e a compra anunciada da Cursor (US$ 60 bilhões em ações), a SpaceX responde por boa parte do valor recorde de saídas do ano: US$ 2.187,6 bilhões projetados para 2026, ante US$ 284,1 bilhões em 2025. Mas o número de saídas efetivamente concluídas segue em patamar comparável ao dos últimos anos.
Sem a SpaceX, o volume de saídas estaria muito mais alinhado ao ambiente restrito dos últimos anos. A janela de IPOs segue entreaberta só para setores como IA, tecnologia espacial e cripto. A Cerebras, por exemplo, cancelou uma tentativa de IPO em 2025, levantou US$ 1 bilhão de forma privada e completou sua abertura de capital neste ano a US$ 34,3 bilhões, cinco vezes o valuation de um ano antes, mas suas ações já caíram abaixo do preço de estreia. Das dez maiores ofertas de tecnologia dos EUA, excluindo Cerebras e SpaceX, apenas três tiveram performance positiva no primeiro ano como empresas abertas.
O valor recorde de saídas esconde um estoque de valor represado que a bonança da SpaceX pouco ajudou a liberar. O número de unicórnios ativos chegou a um recorde de 945 no trimestre, alta de 9,4% frente ao fim de 2025, com valor agregado de US$ 5,3 trilhões. Entretanto, a pressão por distribuições que atinge os cotistas há anos segue praticamente intacta, já que o valor do trimestre está concentrado, de forma esmagadora, em uma única empresa recém-aberta. Enquanto a onda de IPOs de IA não se ampliar para liquidez sustentada em múltiplas empresas, a distância entre valor “no papel” e distribuições realizadas seguirá sendo a maior tensão do mercado. O valor de aquisições (M&A) no acumulado do ano já é o mais alto da década: US$ 375,4 bilhões.
O panorama regulatório e macroeconômico
O relatório do Pitchbook também descreve o contexto de política pública nos Estados Unidos, segundo a NVCA: incerteza persistente sobre a tributação federal (incluindo o risco de mudanças no tratamento de “carried interest”); agenda mais acelerada da SEC para facilitar captação de capital e reduzir exigências de divulgação; ambiente de fusões e aquisições mais permissivo no Departamento de Justiça; avanço da regulamentação de stablecoins após o GENIUS Act; e debate sobre um possível teto federal para regras estaduais de IA, que já provocou reações críticas por questões de direitos civis.
Já a visão macroeconômica do J.P. Morgan, parceiro do relatório, projeta crescimento estável nos EUA em 2026, mas com inflação em alta, em parte por causa do conflito no Oriente Médio e de choques de oferta em petróleo, gás, fertilizantes e hélio. O banco espera que o Federal Reserve (Fed) mantenha os juros entre 3,50% e 3,75%, com os juros de dez anos do Tesouro na faixa de 4% médio a alto. O desemprego geral está em 4,3%, mas o setor de tecnologia já registrou quase 125 mil cortes de vagas anunciados no ano, com fatia crescente atribuída à automação por IA, mesmo com a demanda por profissionais de IA em alta.
O J.P. Morgan estima que o mercado de IPOs deve movimentar entre US$ 60 bilhões e US$ 70 bilhões em 2026, excluindo grandes ofertas isoladas como a da SpaceX, acima dos US$ 43 bilhões de 2025, mas distante do pico de US$ 155 bilhões de 2021.