The Shift

Cortar equipes de cibersegurança sai caro: o novo risco está na falta de skills, não de vagas

Com cortes, demissões e congelamento de contratações, organizações estão enfraquecendo equipes de segurança justamente quando crescem os ataques baseados em IA e a demanda por novas habilidades (Crédito: Freepik)

Em 2025, quase 125 mil profissionais foram demitidos por companhias de Tecnologia. Entre eles, desenvolvedores e especialistas em segurança cibernética, uma das áreas mais requisitadas e com milhares de vagas em aberto nas organizações. Nos fóruns do Reddit, a discussão é que as empresas querem que os candidatos tenham conhecimento e desempenhem funções além de seu job description. Esse cenário bate exatamente com o relatório “ISC2 Cybersecurity Workforce Study 2025 – Cybersecurity Professionals Navigate Evolving Workplaces While Seizing New Opportunities”, que acompanha a evolução do mercado de trabalho em cibersegurança.

Em 2025, 36% das organizações reportaram cortes de orçamento em cibersegurança, contra 37% em 2024 e 30% em 2023. Quase uma em cada quatro (24%) relataram demissões em suas equipes de segurança cibernética, uma queda de um ponto percentual em relação a 2024. Pelo menos 39% congelaram contratações e 34% congelaram promoções, de acordo com o levantamento. Além disso, a preocupação crescente com restrições orçamentárias é o bode na sala. Apenas 55% dos entrevistados acreditam que suas organizações possuem recursos suficientes para responder adequadamente a incidentes de segurança nos próximos dois ou três anos.

O momento coincide com um aumento das ameaças e superfícies de ataque. De acordo com o “Global Cybersecurity Outlook 2026”, relatório anual do Fórum Econômico Mundial (WEF) com foco na segurança digital, 87% das lideranças de cibersegurança disseram que os riscos associados a vulnerabilidades de IA cresceram no ano passado, muito mais do que fraude e phishing (77%), disrupções na cadeia de suprimentos (65%) e vulnerabilidades de software (58%). 

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Para fazer frente a esse movimento, as organizações estão redesenhando o perfil de suas equipes. Acontece que as empresas enfrentam uma série de dificuldades para preencher vagas e montar suas equipes, entre elas

O relatório da ISC2 revela um cenário incongruente: ao mesmo tempo em que a cibersegurança continua sendo uma das áreas mais críticas para as organizações, as equipes responsáveis por proteger dados e sistemas operam sob pressões econômicas, escassez de competências e um ambiente tecnológico cada vez mais complexo. A pesquisa ouviu 16.029 profissionais e tomadores de decisão em cibersegurança na América do Norte, América Latina, Europa, Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico.

Pressão econômica pesa sobre as equipes de segurança

Nos últimos anos, a desaceleração econômica global atingiu praticamente todas as áreas de tecnologia. A cibersegurança não ficou imune. O relatório mostra que demissões, congelamentos de contratação e cortes de orçamento ainda fazem parte da realidade de muitas organizações, embora o ritmo dessas medidas tenha começado a se estabilizar em 2025. Mesmo assim, é possível sentir o impacto.

Entre os profissionais entrevistados:

Os impactos financeiros aparecem diretamente na capacidade das empresas de contratar ou reter talentos:

Essas restrições criam um efeito dominó. Menos profissionais significam menos habilidades disponíveis dentro das organizações, o que reduz a capacidade de resposta a ataques. A percepção entre os especialistas não deixa dúvidas:

Em outras palavras, cortar investimentos em cibersegurança pode gerar economias de curto prazo, mas aumenta o risco operacional de longo prazo.

A escassez de habilidades é um problema maior que a falta de profissionais

O “cybersecurity talent gap”, a diferença entre o número de profissionais disponíveis e a demanda do mercado, sempre foi uma questão nas empresas, mas em 2025, a discussão mudou. As lideranças e profissionais do setor passaram a considerar a escassez de habilidades críticas mais grave do que a falta de pessoas em si. Muitas empresas até conseguem contratar profissionais, mas não necessariamente aqueles com as competências necessárias para lidar com ameaças modernas.

Segundo o estudo:

Porém, quando se trata de habilidades:

Entre as habilidades mais demandadas atualmente estão

A necessidade de competências técnicas e não técnicas especializadas levou muitas empresas a adotar novas estratégias, incluindo treinamento interno e requalificação profissional, uso de consultores e provedores de serviços externos e criação de equipes multidisciplinares de segurança. Essa mudança representa uma evolução importante no mercado de trabalho de cibersegurança. Em vez de simplesmente ampliar equipes, as organizações precisam desenvolver talentos internamente e expandir as competências existentes (upskilling e reskilling).

Falta de habilidades já provoca falhas de segurança

As principais causas dessas lacunas incluem:

A escassez de competências não é apenas um problema de gestão de pessoas. Ela já está gerando impactos diretos na segurança das organizações. Segundo o estudo:

Entre os efeitos mais comuns:

 

Inteligência Artificial está transformando o trabalho em cibersegurança

A Inteligência Artificial aparece como uma das maiores mudanças estruturais na área de segurança cibernética. A integração de ferramentas baseadas em IA a operações de segurança alteram a forma como profissionais monitoram ameaças, investigam incidentes e analisam vulnerabilidades.

Os dados mostram o avanço das ferramentas de IA:

No total, 69% das organizações estão no caminho para usar IA regularmente em cibersegurança. Entre quem já utiliza IA:

As áreas onde a IA deve gerar mais eficiência são:

Por um lado, ferramentas de automação e análise avançada permitem detectar ameaças com mais rapidez e eficiência. Por outro, criminosos também estão usando IA para desenvolver ataques mais sofisticados. Apesar desses riscos, os profissionais do setor demonstram um nível surpreendente de otimismo em relação à tecnologia. 

Segundo o levantamento:

Como resposta:

Em vez de enxergar a IA como uma ameaça ao emprego, muitos profissionais a veem como uma oportunidade de evolução da carreira.

 

IA também está criando novos riscos e tipos de ataques

A pesquisa mostra que os ataques baseados em IA estão em um movimento crescente. Entre os incidentes registrados:

No total:

 

A satisfação profissional continua alta, mas o risco de burnout cresce

Mesmo diante de pressões econômicas e escassez de talentos, a satisfação geral permanece relativamente positiva.

Dados principais:

Mas há sinais de alerta:

Entre as principais causas de insatisfação:

A maioria pretende permanecer na área, mas não necessariamente na mesma empresa. A carreira em cibersegurança continua sendo vista como promissora:

No entanto, a fidelidade às empresas é menor: 75% dos profissionais pretendem permanecer em sua organização nos próximos 12 meses e 66% dizem que permanecerão pelos próximos dois anos.

Por outro lado, 78% pretendem permanecer na área de cibersegurança ao longo da carreira. Apesar das dificuldades, os profissionais de cibersegurança demonstram otimismo com o futuro da área, principalmente pela percepção de que tecnologias como IA criarão novas funções e oportunidades de carreira, em vez de substituir os especialistas existentes.