Organizar informação dispersa, estruturar uma taxonomia comum e dar visibilidade aos atores do ecossistema. É o que faz o “Radar Agtech LAC 2026”, primeira edição a expandir para escala continental o mapeamento que a Embrapa, a SP Ventures e a Homo Ludens conduzem no Brasil desde 2019. O relatório identificou 2.653 startups distribuídas por 23 países, criando uma base abrangente de inteligência sobre inovação agroalimentar na América Latina. E que chega já com uma importante constatação: a próxima década será decisiva para consolidar a América Latina como potência agrícola e referência global em inovação AgFood-Climatech.
O projeto, firmado em 2025 durante a COP30 em Belém, e desenvolvido em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), quer transformar os dados em conexões, políticas coordenadas e em investimentos. Diferentemente de uma simples extensão geográfica do modelo brasileiro, o Radar Agtech LAC adota uma matriz de classificação multidimensional e multirrótulo, construída para absorver as assimetrias de maturidade, de disponibilidade de dados e de instituições entre países tão distintos quanto Brasil e Bahamas. Cada startup pode ser associada a até três opções por dimensão, sempre validadas por evidências verificáveis. É uma estrutura desenhada para a comparabilidade regional, e que reconhece, de saída, que comparar ecossistemas em estágios diferentes exige cautela tanto quanto ambição.
A distribuição geográfica das startups é altamente assimétrica. O Cone Sul reúne 2.404 startups, ou 90,6% de toda a base mapeada. Em seguida, com participações de um único dígito, aparecem o México, com 108 startups (4,1%); os Países Andinos, com 106 (4,0%); a América Central, com 27 (1,0%); e o Caribe, com apenas 8 (0,3%). Esse desequilíbrio precisa ser lido sobre o pano de fundo da relevância agrícola da região. A América Latina e o Caribe abrigam alguns dos maiores produtores e exportadores globais de soja, milho, café, carnes, frutas, açúcar e fibras, e a FAO os reconhece como território estratégico para a segurança alimentar mundial. Brasil, Argentina, México e Colômbia destacam-se no comércio agrícola internacional, enquanto países menores ampliam nichos de produção sustentável, cafés especiais, cacau e bioeconomia. É um ecossistema produtivo de escala global, o que torna ainda mais expressiva a constatação de que sua inovação tecnológica se concentra em tão poucos países.
No ranking por país, o Brasil é o protagonista absoluto: sozinho, concentra 2.075 startups, equivalentes a 78,2% da base total e a 86,3% de todo o Cone Sul. É um peso tão grande que o próprio relatório alerta: muitas das tendências observadas para a região refletem, em grande medida, a estrutura do ecossistema brasileiro. Atrás do Brasil vêm Argentina, com 158 startups (6,0%); México, com 108 (4,1%); Chile, com 91 (3,4%); Colômbia, com 79 (3,0%); e Uruguai, com 74 (2,8%). Quando o Brasil é retirado da conta, todos os demais países do Cone Sul somam apenas 329 startups, portanto, 12,4% da base.
Essa concentração tem uma leitura dupla. Em termos absolutos, ela reforça a liderança brasileira e a maturidade do Cone Sul. Mas a leitura proporcional revela especializações relativas importantes nas sub-regiões menores, que ficam ocultas quando se olha só para o volume. A América Central, por exemplo, tem presença ínfima na base total, mas 77,8% de suas startups atuam em cultivos agrícolas. O Caribe, com apenas oito empresas, apresenta peso proporcional elevado em horticultura e fruticultura (37,5%). O México combina escala intermediária com um perfil tecnológico distinto.
O campo continua digital (mas não só digital)
A análise multidimensional do Radar, uma das principais inovações metodológicas desta edição, classifica cada startup em quatro dimensões complementares:
- Cadeias de produção
- Domínios tecnológicos
- Categorias de solução
- Benefícios
A classificação admite múltiplas categorias por empresa. Por isso, os percentuais não somam 100%: indicam a proporção de startups associadas a cada categoria, e não fatias exclusivas.
No quesito domínios tecnológicos, o digital aparece em 1.662 startups, ou 62,6% da base. São soluções de software, plataformas, dados, conectividade, sensoriamento, inteligência analítica e IA aplicadas ao campo. Mas o dado mais interessante é o que vem depois: o domínio biológico aparece em 703 startups (26,5%), seguido de perto pelo físico-químico, com 676 (25,5%), e pelo mecatrônico, com 530 (20,0%). A biotecnologia, mais incipiente, comparece em 109 startups (4,1%). Em outras palavras, embora a digitalização seja transversal a todo o ecossistema, ela não explica sozinha sua dinâmica: há uma presença expressiva de bioinsumos, novos materiais, máquinas, automação e tecnologias de base científica.
Nas cadeias de produção, predominam os sistemas de produção vegetal. A cadeia mais frequente é a de cultivos agrícolas, que inclui soja, milho, arroz, trigo, cana, café, cacau e algodão. Está presente em 752 startups (28,3% da base). Vêm a seguir pecuária, com 139 (5,2%); horticultura e fruticultura, com 94 (3,5%); silvicultura, com 84 (3,2%); e produção de sementes e mudas, com 59 (2,2%). As cadeias como aquicultura, apicultura, avicultura e suinocultura aparecem com frequências marginais, sugerindo espaço para aprofundamento futuro. Um número resume bem a natureza transversal dessas empresas: 1.494 startups, ou 56,3% da base, atuam em mais de uma cadeia simultaneamente.
Quando se observa onde, na cadeia, as soluções se posicionam, o ecossistema mostra seu centro de gravidade: a operação dentro da fazenda. As soluções classificadas como “dentro da porteira” aparecem em 1.789 startups (67,4% da base), bem à frente das de “depois da porteira”, com 649 (24,5%), e das de “antes da porteira”, com 628 (23,7%). No detalhe das 34 categorias de solução, entre as quais a Robótica (introduzida nesta edição), a mais frequente é a de integração de sistemas, soluções e plataformas de dados, presente em 768 startups (28,9%). É um sinal claro de que o gargalo percebido pelo ecossistema está mais relacionado à organização, interoperabilidade e uso estratégico do dado agronômico. Logo atrás vêm
- Fertilizantes, inoculantes e nutrição vegetal, com 427 startups – 16,1% (território dos bioinsumos)
- Drones, máquinas e equipamentos, com 254 – 9,6%
- Sistemas de gestão da fazenda, com 219 – 8,3%
- Internet das Coisas para a agricultura, com 184 – 6,9%
- Alimentos inovadores e novas tendências alimentares, com 179 – 7,0%
- Biodiversidade e Sustentabilidade, com 160 – 6,0%
Essa concentração na porteira mostra que há espaço aberto nas pontas da cadeia. As soluções de “antes da porteira” (insumos, crédito, seguros, créditos de carbono) e de “depois da porteira” (rastreabilidade, logística, alimentos inovadores, varejo e processamento) somam, cada uma, menos de um quarto da base. O próprio relatório aponta esses dois macrossegmentos como territórios de oportunidade, principalmente em agrifintechs, bioinsumos e foodtechs, áreas em que a densidade de startups ainda é baixa diante do tamanho dos mercados que endereçam.
A leitura dos benefícios fecha o diagnóstico. O resultado mais buscado pelas soluções é aumentar a produção e melhorar a eficiência operacional, associado a 1.726 startups ou 65,1% da base. É a marca de um ecossistema pé no chão, voltado a rendimento, redução de perdas e precisão. Em seguida aparecem fortalecer o acesso a mercados, marketing e vendas, com 971 startups (36,6%); fortalecer a sustentabilidade ambiental e a resiliência climática, com 787 (29,7%); elevar a qualidade, segurança e diversidade dos produtos, com 751 (28,3%); e melhorar a rentabilidade e o acesso a financiamento, com 541 (20,4%). Benefícios de natureza mais social, com inclusão e acesso ao conhecimento (261 startups, 9,8%), governança e transparência (206 startups, 7,8%) e condições de trabalho (160 startups, 6,0%) aparecem com frequência menor, o que o próprio relatório aponta como grande oportunidade para o ecossistema.
Cinco regiões, cinco perfis
Por trás dos agregados dominados pelo Brasil, o Radar Agtech LAC revela perfis sub-regionais bastante distintos. E é aí que reside boa parte do valor estratégico do estudo.
O México é o caso mais singular. Suas 108 startups o colocam em terceiro lugar absoluto, mas o que chama atenção é o perfil tecnológico: o domínio digital aparece em 53,7% das empresas mexicanas, enquanto o domínio biológico atinge 41,7%, em proporção superior à do próprio Cone Sul (27,1%). É um ecossistema com vocação relativa para bioinsumos e biológicos, no qual a principal categoria de solução é a de sistemas de gestão da fazenda (17,6%), seguida de Internet das Coisas (13,9%) e fertilizantes e nutrição vegetal (12,0%).
Os Países Andinos são fortemente puxados pela Colômbia, que sozinha responde por 79 das 106 startups da sub-região (74,5%). O domínio digital se destaca (73,6%), e a categoria mais frequente é a de sistemas de gestão da fazenda (22,6%), seguida de mercados e plataformas de comercialização (17,9%), um perfil mais voltado à organização do produtor e ao acesso ao mercado.
A América Central, com 27 startups concentradas em maior número na Costa Rica (11) e na Guatemala (6), exibe a maior taxa de digitalização relativa de toda a base: o domínio digital comparece em 88,9% das empresas. Também surpreende pela presença mecatrônica (48,1%) e pela altíssima concentração em cultivos agrícolas (77,8%), refletindo a dependência da agricultura nessas economias.
O Caribe é a base mais reduzida: apenas 8 startups, lideradas por Trinidad e Tobago (3), e, por isso, deve ser lido com cautela. Pequenas variações absolutas produzem grandes oscilações percentuais. Ainda assim, destaca-se relativamente em horticultura e fruticultura e em agricultura urbana, coerente com sua fragmentação territorial.
Já o Cone Sul, além do peso brasileiro, é a sub-região de maior diversidade tecnológica absoluta e relativa, combinando digital (62,4%), físico-químico, biológico e mecatrônico. É também onde se concentra o desenvolvimento mais maduro de bioinsumos e novos materiais, indicando um amadurecimento para além do software puro. Em seu perfil temático, predominam os cultivos agrícolas (666 startups, 27,7% da sub-região) e a categoria de integração de sistemas e plataformas de dados (744 startups, 30,9%). A Argentina, segundo país da base, ancora a densidade do Cone Sul fora do Brasil, mas a distância é enorme: com 158 startups, tem menos de um décimo do contingente brasileiro.
Os benefícios buscados pelas soluções também variam conforme a geografia, e essa leitura proporcional é talvez a mais reveladora do estudo. O ganho de produção e eficiência operacional é o objetivo dominante em todas as sub-regiões, mas atinge seu pico relativo no México (78,7% das startups mexicanas) e na América Central (74,1%). Já a sustentabilidade ambiental e a resiliência climática, que respondem por 29,7% da base total, ganham proporção bem maior nos territórios mais vulneráveis ao clima: estão associadas a 50,0% das startups do Caribe e a 40,7% das da América Central, contra 30,4% no Cone Sul e 21,3% no México. O acesso a mercados, por sua vez, é mais central no Cone Sul (38,2%) do que nas demais regiões, coerente com economias de forte tradição agroexportadora. São nuances que o número agregado, dominado pelo Brasil, jamais revelaria.
Muita inovação, pouco capital
Aqui entra um contraponto importante, que o próprio relatório sinaliza e que dados externos ajudam a dimensionar. A SP Ventures, uma das realizadoras, observa que a América Latina tem participação pequena nos investimentos globais em AgFoodTech quando comparada à sua importância na produção agrícola mundial. Os números de mercado confirmam o descompasso.
Segundo o “Developing Markets AgriFoodTech Investment Report 2025”, do AgFunder, as startups de agrifoodtech da América Latina e do Caribe captaram US$ 421 milhões em 89 negócios em 2024, apenas 11% de todo o investimento dos mercados emergentes no setor, que somou US$ 3,7 bilhões naquele ano (alta de 63% em relação a 2023). O Brasil liderou a região, com US$ 224 milhões, seguido por México (US$ 97 milhões, alta de 250%) e Chile (US$ 58 milhões). Mais da metade do capital regional, US$ 264 milhões, foi para soluções “antes e dentro da porteira” (upstream), puxadas por marketplaces agrícolas e robótica, exatamente o segmento que o Radar Agtech LAC mostra como o mais povoado de startups.
A região reúne 2.653 startups mapeadas e uma base produtiva de classe mundial, mas o volume de capital de risco destinado à inovação no Agro ainda é modesto em escala global. Para empreendedores e investidores, é um sinal de oportunidade estrutural. Há ecossistema construído, mas subcapitalizado.
Reduzir diferenças para destravar escala
O retrato que emerge da análise do “Radar Agtech LAC 2026” é o de um ecossistema concentrado, mas multidimensional, em que a eficiência operacional e a base digital são as maiores determinantes de disseminação e impacto. A América Latina e o Caribe reúnem cerca de 640 milhões de habitantes nos 23 países analisados, e a agropecuária pesa mais de 5% do PIB em 17 deles. Segundo a FAO, cerca de 80% das propriedades rurais da região pertencem à agricultura familiar, o que significa que qualquer estratégia regional de inovação precisa equilibrar, ao mesmo tempo, produtividade, inclusão e adaptação climática.
O maior desafio apontado pelo Radar é a fragmentação: startups, investidores, universidades, hubs e instituições públicas ainda atuam de forma relativamente desconectada, limitando a circulação de conhecimento, capital e oportunidades. As iniciativas de cooperação regional, como o Protocolo PROCISUR de Verificação e Validação de Soluções Digitais Agtech ou a Semana da Agricultura Digital do IICA, que em 2025 reuniu mais de 160 pessoas de 20 países, surgem como instrumentos para reduzir riscos, construir confiança e acelerar adoção.
O Radar Agtech LAC se posiciona como uma infraestrutura regional de inteligência estratégica. Ao organizar informação dispersa, estruturar uma taxonomia comum e dar visibilidade aos atores do ecossistema, ele cria condições para análises mais aprofundadas, políticas mais efetivas e a identificação de oportunidades de investimento e inovação aberta.