Quando o computador chegou nas empresas nos anos 80, sabe o que a maioria das pessoas fez? Usou para digitar os mesmos textos que antes escrevia à máquina. Mesmo fluxo. Mesmo raciocínio. Só mais rápido. Era como uma máquina de escrever elétrica, só que agora com tela.
O computador só virou revolução quando alguém parou de usá-lo para reproduzir o passado e começou a imaginar o que ele poderia tornar possível (volte um post para entender essa conversa de projeção x imaginação). Surgiu a planilha eletrônica e departamentos inteiros de contabilidade manual deixaram de existir. Com o e-mail, camadas de hierarquia corporativa sumiram. O processo mudou e, aí sim, a coisa ficou séria.
Pois bem. Uma pesquisa da Afferolab com 4,3 mil profissionais acaba de mostrar que estamos revivendo isso.
“25% dos C-Levels pararam de delegar tarefas nos últimos 30 dias porque, com IA, fariam mais rápido sozinhos.”
Leia de novo. Devagar.
O CEO. O CMO. O CFO. As pessoas que ganham para pensar o futuro da empresa, definir estratégia, mobilizar times, imaginar o que ainda não existe, estão usando IA para fazer apresentações e análises que deveriam estar nas mãos de suas equipes.
E essa sensação de controle e produtividade é uma armadilha. Você se sente eficiente, mas está dedicando seu tempo a algo que já não te cabia. Na pesquisa,
- 87,5% dos C-levels usam IA para gerar textos,
- 37,8% usam IA para automatizar fluxos, o que realmente muda a empresa e
- 97,4% usam só ChatGPT, Gemini ou Copilot, como se IA fosse só isso.
Pior: apenas 0,1% atingiram o nível de “superoperador”, algo que realmente transformaria estruturas.
Inovação de verdade vem de imaginar o que ainda não existe, exatamente o que a IA ainda não faz. A vida (e os negócios que realmente mudam um setor) não é linear.
Em termos práticos, o que um bom líder pode fazer com essas informações? Eu sugiro três perguntas para guiar suas próximas decisões:
1 – Qual decisão estratégica tomei nos últimos 90 dias que a IA ajudou a questionar — e não apenas a justificar?
Usar a IA para confirmar o que você já pensa é ter um espelho. O valor real está em entender o que você não veria. Se a IA só concorda com você, você está pagando caro por um eco. É a boa e velha frase: se a pessoa mais inteligente da sala for você, mude de sala.
2 – Qual processo da minha empresa a IA tornaria desnecessário?
A resposta incômoda é o ponto de partida. Se não há resposta, o problema não é a IA – é o modelo mental.
3 – Se um concorrente nativo de IA entrasse no meu mercado amanhã, qual seria o primeiro ativo da minha empresa a perder valor?
E atenção: essa é uma pergunta para o Conselho. Em toda reunião. Quem não consegue responder provavelmente está usando IA para fazer o deck da reunião, em vez de pensar no que a reunião deveria discutir.
E a boa notícia: cada passo importa. Usar IA para gerar textos é válido. Usar para análise também. São primeiros passos legítimos — assim como aprender a digitar no computador era um passo legítimo em 1985. O problema não é começar por aí. O problema é ficar por aí e transformar todo o seu investimento em uma bela máquina de escrever elétrica.