The Shift

IA, trabalho e cognição

O debate sobre Inteligência Artificial no trabalho ainda oscila entre dois extremos. De um lado, o entusiasmo com produtividade. Do outro, previsões apocalípticas sobre desemprego em massa. Mas três leituras recentes sugerem que a transformação real é mais complexa:

1. Um estudo da Anthropic que analisou milhões de interações reais com IA.

2. Um relatório da International Labour Organization sobre impactos no mercado de trabalho.

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

3. Uma reflexão recente da psicóloga Iona Szkurnik sobre como estamos usando IA no aprendizado.

Quando colocamos esses três elementos juntos, o quadro que emerge é menos sobre substituição de empregos e mais sobre uma mudança estrutural na arquitetura do trabalho humano: a divisão entre humanos e máquinas está acontecendo na esfera das tarefas.

O estudo da Anthropic analisou grandes volumes de interações com o modelo Claude para entender o que as pessoas realmente estão delegando para IA e o resultado é revelador. Em aproximadamente 57% dos casos a IA é usada para ampliar capacidades humanas, enquanto 43% correspondem à automação direta de tarefas.

Ou seja, a tecnologia não está simplesmente substituindo profissionais. Ela está reorganizando o trabalho.

Profissões continuam existindo. Mas dentro delas, certas atividades passam a ser executadas por sistemas algorítmicos.

De operador a maestro

Essa fragmentação do trabalho é provavelmente o fenômeno mais importante da transição atual. Ela desloca o valor profissional de executar tarefas para o de orquestrar decisões. Quem formula problemas, interpreta contexto e exerce julgamento tende a ganhar relevância.

E mais: a automação não é neutra. Ela tem geografia ocupacional e gênero. O relatório da ILO adiciona uma camada importante a essa discussão: segundo o estudo, cerca de 1/4 dos empregos globais têm algum nível de exposição à IA generativa, embora poucos possam ser totalmente automatizados.

Acontece que algumas categorias profissionais são muito mais expostas do que outras. E aqui aparece um ponto que raramente entra no debate público. O impacto tende a ser maior em ocupações dominadas por mulheres.

O relatório mostra que 9,6% dos empregos tradicionalmente femininos estão entre os mais expostos à transformação por IA, contra 3,5% nas ocupações predominantemente masculinas.

A razão não é competência. É estrutura ocupacional.

Muitas mulheres estão concentradas em funções administrativas e clericais, justamente aquelas em que sistemas de IA conseguem automatizar a organização de informações, a geração de texto e o processamento documental.

Isso significa que a transição tecnológica também é uma questão de política do trabalho e equidade. A pergunta não é apenas quantos empregos mudam. Mas quem precisa se requalificar primeiro.

Adeus, capacidade cognitiva

Existe ainda um terceiro vetor nessa discussão que raramente aparece nos relatórios econômicos. O impacto da IA sobre a forma como aprendemos e pensamos.

A psicóloga e empreendedora da educação Iona Szkurnik resume isso em uma frase que considero muito precisa: “Não é como se fosse alguém fazendo por você. É uma continuidade sua.”

Essa ideia é central. A IA deveria funcionar como uma extensão do pensamento. O problema é que, na prática, muitas vezes ela vira exatamente o contrário: uma terceirização cognitiva.

Se a tecnologia passa a formular argumentos, sintetizar ideias e estruturar raciocínios por nós, existe um risco pouco discutido: a erosão da musculatura intelectual humana. Aprender sempre exigiu fricção cognitiva. Exigiu curiosidade, dúvida, esforço. Quando eliminamos completamente essa fricção, não estamos apenas ganhando eficiência. Estamos possivelmente perdendo profundidade intelectual. O verdadeiro diferencial humano está mudando.

Se essas três tendências estiverem corretas, a transformação do trabalho não será sobre tecnologia. Será sobre capacidade cognitiva humana.

O valor profissional tende a migrar para competências que a IA ainda não reproduz bem:
• pensamento crítico
• julgamento sob ambiguidade
• interpretação contextual
• formulação de problemas
• tomada de decisão em ambientes complexos

Não por acaso, essas são justamente as habilidades que historicamente definem liderança.

Isso significa que o debate sobre IA no trabalho é, no fundo, um debate sobre educação, aprendizado contínuo e arquitetura das competências humanas.

A pergunta que talvez devêssemos fazer é: estamos formando profissionais que sabem pensar com a IA? Ou estamos formando profissionais que apenas sabem delegar pensamento para a IA?

A diferença entre essas duas coisas parece pequena. Mas, no longo prazo, ela pode redefinir o mercado de trabalho e a diferenciação entre quem lidera e quem apenas executa.