The Shift

IA, agilidade e a perda de prioridade do longo prazo: um trio perigoso

A perenidade tem sido um atributo subvalorizado em boa parte das organizações, em nome dos resultados a curto prazo. Pode parecer uma afirmação radical, mas ela tem respaldo na realidade: basta olhar o noticiário e perceber a quantidade de empresas tradicionais que pediram recuperação judicial, ou efetivamente encerraram suas operações nos últimos anos. É claro que são muitas as razões que levam uma organização de grande porte a fechar ou decretar falência, mas não podemos desconsiderar que, entre elas, faltam bases para criar solidez no longo prazo.

Muitas empresas estão sendo vítimas da era do imediatismo que elas próprias ajudaram a fomentar. A indústria de tecnologia é um exemplo: em 2025, o setor demitiu quase 246 mil pessoas no mundo e, até abril deste ano, esse número chegou a 45 mil profissionais desligados, segundo uma análise conjunta de levantamentos feitos pelo TechCrunch, Layoffs.fyi, TrueOp.io e WARN Databases. Muitas dessas demissões são fruto da adoção apressada de inteligência artificial, empregada principalmente com a suposição de que reduziria postos de trabalho. Esse dado se torna preocupante quando lembramos que uma abrangente pesquisa feita pelo MIT no ano passado mostrou que pouco mais de 5% dos projetos de inteligência artificial teriam atingido o sucesso previsto.

As empresas estão se precipitando ao depositar tanta confiança na IA?

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Os layoffs contribuem para degradar a cultura organizacional?

A economia com a eliminação de postos de trabalho vai compensar a longo prazo?

Essas são algumas perguntas que os próximos parágrafos se propõem a responder, sempre sob a ótica da necessidade de pensar na continuidade do negócio de forma longeva e sustentável.

Mentalidade equivocada

Assim que para de se preocupar com a própria perenidade, o negócio começa a sofrer o impacto negativo dessa atitude. Isso acontece porque as prioridades estratégicas mudam completamente: elas se tornam muito mais imediatistas, o que pode trazer bons resultados a curto prazo, mas não prepara a organização para trafegar pelo terreno cada vez mais instável que encontramos nos mercados atuais.

Não é só o fato de as tecnologias estarem mais sofisticadas: a concorrência é global e bastante acirrada, os acontecimentos geopolíticos se tornaram mais imprevisíveis e mais influentes do que nunca. E a inteligência artificial potencializa cada vez mais a volatilidade desse cenário.

Os últimos 50 anos trouxeram várias rupturas tecnológicas, da computação pessoal ao surgimento da internet, mas nenhuma teve tanta capilaridade, tampouco transformou tão drasticamente a forma de trabalhar em tão pouco tempo, quanto a IA. Hoje, em poucos meses, já vemos saltos significativos causados pela inteligência artificial. Até mesmo atividades sofisticadas, como algumas etapas de serviços de consultoria, podem ser automatizadas por ela.

Negligenciar o futuro da empresa é mais prejudicial hoje do que era dez anos atrás. É compreensível que muitas empresas estejam concentradas em sobreviver até o próximo ano, porém, mais importante ainda é garantir a sua própria história.

Curva de sanidade

Uma ideia que tem alimentado o imediatismo é a percepção de que a inteligência artificial vai resolver “todos” os problemas. É evidente que não vai. Porém, toda vez que surge algo novo – seja na tecnologia ou em políticas corporativas (como o ESG) – aparecem os aventureiros e os aproveitadores.

O contingente dessa “turma” é numeroso, e aumenta quando a situação vigente é pintada com tintas apocalípticas. Basta lembrar o caso do Y2K, ou “o bug do milênio”, como ficou conhecido por aqui. Houve quem alardeasse o fim do mundo, literalmente, como consequência dos sistemas “zerarem” por uma suposta falha ao processar a virada do século 20 para o 21. Houve pessoas e empresas que ganharam muito dinheiro falando sobre o colapso e/ou vendendo pretensas soluções para ele.

O mundo, como se sabe, não acabou. Mas o cenário que vivenciamos naquele período não é muito diferente do atual no que diz respeito tanto ao frenesi criado como à falta de reflexão em torno dele. Porém, assim como naquela época, há uma curva de sanidade, e acredito que já estamos começando a trafegar por ela. Isso vai permitir separar as aventuras, o oportunismo e as soluções ruins daquilo que é realmente valioso.

Desacelerar não é parar

Essa sanidade não vai resultar no abandono da inteligência artificial. Pelo contrário, ela permitirá reconhecer que essa tecnologia desbalanceou o mercado, mas que é possível dimensionar com maior precisão e realismo como afeta cada negócio. Com a mentalidade recalibrada, a IA pode até mesmo ser usada em experimentações que não tenham como fim o resultado a curto prazo.

O oportunismo que eu descrevi acima, somado à busca irrefletida por “sobreviver neste ano”, é o maior ofensor à perenidade. No caso do oportunismo, ele não se manifesta pelo caráter apocalíptico, e sim pela postura de executivos responsáveis por tecnologia – ou mesmo à frente de outras áreas do negócio -, que enxergam nesse momento uma chance de ganho pessoal. Essa mentalidade sempre é favorecida à medida que uma empresa se afasta de suas origens e se torna mais corporativa (no sentido de ter menos “olhar de dono” e mais de um board político). E isso acaba retroalimentando a ideia de obter resultados a curto prazo.

É por isso que pessoas com perfil mais propenso a manter a continuidade das empresas tendem a buscar posições como conselheiro ou investidor. São cadeiras onde eles têm mais oportunidades de influenciar na visão de longo prazo do que na cadeira de executivo onde essas relações oportunistas já estão emaranhadas à estrutura de poder.

Mas não podemos nos esquecer das outras categorias profissionais na pirâmide, e o turnover constante e a instabilidade dos quadros de colaboradores comprometem a formação de uma cultura empresarial. A cultura, por sua vez, é um dos alicerces nos quais as companhias solidificam suas bases de sustentação para caminhar com fôlego ao longo dos anos.

A visão de curto prazo contribui para o turnover, seja por provocar demissões que deveriam ter sido melhor avaliadas, seja por desestimular talentos que deixam de perceber que há uma boa perspectiva para as suas carreiras naquele negócio, e vão buscar alternativas.

Parece um paradoxo, mas a aplicação da IA – com foco na produtividade e ampliação da capacidade humana – deveria fazer com que as empresas identificassem e preservassem os seus talentos, porque é isso que fará a diferença na busca da competitividade, e não dispensá-los ou desmotivá-los, como vemos com frequência.

Novas gerações de executivos e profissionais herdam aquilo que foi plantado por seus antecessores. E quando a pressa tem peso maior que a perenidade, a herança é tão somente o sentimento de urgência.