The Shift

Enquanto o Money20/20 discutia identidade, os agentes de IA já agiam na plateia

Escrevo de Las Vegas (EUA), no meio do Money 20/20, evento de pagamentos e serviços financeiros e ponto de encontro de líderes seniores de bancos, empresas de pagamentos, tecnologia, varejo e startups com o objetivo de impulsionar o setor fintech.

Em uma das palestras, Christopher Bramwell, diretor de Privacidade do Estado de Utah, explicava por que a identidade digital precisa ser repensada. O ponto de partida é uma constatação preocupante: dados pessoais já foram expostos em larga escala. Ainda assim, essas mesmas informações continuam sendo utilizadas para comprovar identidades, mesmo quando já não oferecem garantias suficientes sobre quem está do outro lado.

A pergunta que ele colocou na mesa ainda parece distante para a maioria de nós: o que acontece quando um agente de Inteligência Artificial (IA) age em nome de uma pessoa? Como ela autoriza, como revoga e como se prova que foi ela mesma quem deu a ordem?

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Então olhei para o lado. Notebooks abertos durante a palestra, com OpenClaw (um agente de IA que faz tarefas sozinho) e um bot do Grok (o assistente de IA da xAI) na tela. Não sei o que cada pessoa tinha pedido ao seu agente, mas sei o que estava aberto.

Parecia uma aula de direção defensiva dada dentro de um carro que já estava em movimento.

Eu também estou aí

Antes de apontar o dedo, preciso confessar: eu uso o OpenClaw. Todo dia de manhã ele pesquisa notícias e indicadores de mercado, olha a minha agenda e faz a triagem da minha caixa de e-mail. Me poupa um tempo que eu não tenho.

Configurei com limites. Em tese, ele não compra nada em meu nome e não tem permissão para falar com o mundo externo. Repare nessas duas palavras: em tese.

Ele lê notícias e e-mails escritos por gente que eu não conheço, e um texto de terceiros pode trazer instruções escondidas para o agente. Ler já é abrir a porta do computador para o texto de um estranho.

Sei que esse risco existe, mas não sei medir seu tamanho, ainda que eu passe a semana lendo sobre o assunto. Imagino quem abriu a mesma ferramenta numa tarde, empolgado, sem fazer essa conta.

Existem dois ritmos

Utah trabalha num compasso diferente. Bramwell contou seis anos de trabalho de base e um princípio que ele repete: primeiro a política pública, depois a técnica. Antes de construir o SETI (a identidade digital aprovada pelo estado), escreveram as regras: quem pode delegar poder a um agente, como revogar e como provar o controle.

A saúde segue a mesma lógica, com ressalvas que devo ao leitor.

No primeiro trimestre de 2026, gravei um vídeo sobre o piloto de Utah em que a IA renova receitas médicas. Falei em prescrição sem um médico revisar cada caso. Voltei às fontes.

O estado montou um sandbox (ambiente controlado em que o regulador suspende regras por tempo limitado para testar) e a empresa Doctronic renova receitas de rotina de pacientes crônicos. Segundo o The Next Web, na fase atual, um médico revisa cada renovação, mas a empresa quer chegar à automação total.

No segundo trimestre, o Conselho de Licenciamento Médico do estado pediu a suspensão do piloto, citando riscos com remédios como os anticoagulantes. O estado recusou. No início do terceiro trimestre, a matéria dizia que ainda não havia dados de segurança publicados.

Utah, portanto, não é um modelo limpo. Eu o vejo como um método: testar pequeno, com regra escrita e resultado aberto, mesmo quando o Conselho Médico diz que só soube do piloto pela notícia.

Sou liberal. Na maioria das discussões, prefiro o mercado ao regulador. Mas aqui enxergo uma falha de mercado. Minha leitura é que quem espera para testar perde para quem chega primeiro, e quem paga a conta é o cidadão. É nesse buraco que o estado entra, e acho legítimo que entre.

O mercado privado segue outro ritmo. O hype cobra escala antes de o teste terminar. O painel sobre redes móveis a que assisti no Money 20/20 vendia segurança em escala e eu saí sem um número de fraudes evitadas.

O atrito que talvez já não proteja

Esse painel merece espaço. Ericsson, Vonage e Aduna (empresa que reúne num só lugar os dados de mais de 40 operadoras de celular) defendem trocar o SMS OTP (a senha de uso único enviada por SMS) por sinais que a operadora já tem: se o chip foi trocado há pouco, há quanto tempo a linha existe e se o aparelho é o de sempre.

O cliente não faz nada. A verificação acontece em silêncio.

O raciocínio deles é de que a IA já falsifica voz, rosto e documento. O que vem da infraestrutura da operadora, dizem, não passa por deepfake (imitação de voz ou rosto feita por IA).

Se isso se confirmar, uma discussão que ouço o tempo todo nas mesas de banco perde parte do sentido. A escolha clássica entre mais segurança ou mais atrito pressupõe que atrito compra segurança. Se a IA derrota o atrito empilhado em cima de selfie, pergunta secreta e código por SMS, ele talvez deixe de comprar qualquer coisa.

Tenho dois cuidados

Primeiro, o sinal de rede diz que o telefone é o de sempre. Sobre a intenção de quem o usa, não diz nada. Se uma voz clonada convence o cliente a autorizar uma transferência do próprio celular, o chip é antigo, o aparelho é familiar e a verificação silenciosa passa limpa. Nesse golpe, a pausa que o atrito impõe talvez seja uma das poucas defesas.

Segundo cuidado: o atrito visível tem uma vantagem que só percebemos quando ele some. Se o sistema erra, o cliente nota e reclama. A verificação silenciosa erra em silêncio. O cliente legítimo é barrado sem saber o motivo e sem ter onde bater.

Utah e Ericsson puxam em direções opostas. Bramwell defende zero vigilância centralizada, enquanto o painel combinava localização, status do chip e padrão de transação para avaliar risco.

Talvez os dois lados precisem conviver: uma identidade nova, que o usuário controla, e vários sinais do mundo real somados para dizer se aquela pessoa é quem afirma ser, no lugar de um único fator frágil como o SMS.

Só que cada sinal é um pedaço da vida de alguém sendo observado. Quem decide quais entram na conta?

O abismo que existe

Geoffrey Moore escreveu em Crossing the Chasm sobre o abismo entre os primeiros que adotam uma tecnologia e a maioria que só compra quando ela está pronta.

Do lado de cá ficam os visionários, que aceitam produto incompleto e sabem o risco que correm. Do lado de lá, a maioria pragmática, que quer solução completa, com referência e garantia.

O que percebo agora é a maioria usando ferramentas que ainda estão do lado de cá. É uma percepção minha, sem pesquisa por trás.

Deixo a discussão de culpa de lado, seja do vendedor, do coach de internet ou do medo de ficar de fora, e fico com o fenômeno: uma parte relevante do público usa tecnologia de visionário sem saber ao certo o que arrisca.

Utah está construindo a ponte, devagar e com tropeços. O mercado já está atravessando.

As perguntas que ficam

Quando a verificação silenciosa barra um cliente legítimo sem ele saber o motivo, quem responde pelo erro? Quanta privacidade o fim do atrito custa e quem aprovou essa conta?

Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas.

Dos que estavam ao meu lado com o agente aberto, quantos sabem a que deram acesso? (E eu, de fato, sei? Em tese.)

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Se a terceira resposta demorar, o seu “em tese” é maior do que parece.