“Ferramentas de IA são usadas em 42% dos golpes no Brasil”.
Essa chamada de um artigo do Estadão que li semana passada não me surpreendeu. Tenho falado muito que os riscos à cybersecurity estão na assimetria entre quem usa bem e quem não está preparado.
Quando 42% dos golpes já usam IA, não é um problema de segurança digital apenas. É um problema de decisão, cultura e governança. E tanta gente ainda está tratando a Inteligência Artificial como tema de inovação ou eficiência. Quando, na prática, já virou tema de risco corporativo e reputação.
Não tem certeza? Vai sem certeza, mesmo
Saímos de um modelo em que o valor vinha da execução para um modelo em que o valor vem do julgamento. É uma mudança cognitiva. A IA absorveu o operacional. O que sobra é decisão. E decisão sob pressão.
A incerteza sempre foi parte do jogo. A diferença é que com os anúncios grandiosos da IA generativa, a gente acreditou que ter mais dados, 47 slides, 3 consultorias e um Copilot seria o suficiente para agir com confiança. Só que informação em excesso não gera clareza. Gera ainda mais hesitação.
Parece que estamos esquecendo que liderar nunca foi sinônimo de ter todas as respostas. Sempre foi sobre agir mesmo sem elas. E o mercado continua exigindo isso.
Tanto se fala sobre o medo do desaparecimento de diferentes trabalhos, mas o que realmente me preocupa é a falta de compreensão profunda sobre os dilemas éticos, a confiabilidade dos dados e os riscos reputacionais que podem surgir se liderarmos sem consciência digital.
O caminho para a consciência digital
A meu ver, precisamos agir em quatro frentes:
- O treinamento vai além das ferramentas
É preciso ensinar a usar a IA em sua amplitude: ensinar a desconfiar melhor, a reconhecer padrões de fraude, a entender deepfakes, a se aprofundar em engenharia social e, principalmente, a verificar como decisões rápidas podem ser manipuladas.
A pergunta que mais escuto é: que ferramenta devo aprender? E sempre respondo a mesma coisa: treinamento bom aqui não é puramente técnico. É situacional. Vamos estudar casos reais, simulações, pressão de tempo, volume de dados.
- Governança que incorpora IA como risco
A IA precisa entrar formalmente no mapa de riscos. Na verdade, eu iria além: tudo o que se relaciona à Tecnologia precisa entrar.
Perguntas que deveriam estar na pauta:
* Onde a IA pode ser usada contra nós?
* Quais decisões hoje são vulneráveis à manipulação?
* Quem responde se um erro baseado em IA acontece?
E mais importante: IA não pode operar sem rastro. Transparência deixa de ser discurso e vira controle. A cada uso em que ela “facilita” nossa vida é importante a gente se perguntar: quem escreveu o algoritmo dessas decisões?
- Protocolos de decisão, não só de tecnologia
Grande parte dos golpes funciona porque alguém tomou uma decisão rápido demais. Então o foco não é só bloquear tecnologia. É redesenhar decisões críticas com processos como:
* dupla validação
* checagem fora de canal para pedidos urgentes
* regras claras para exceções
Enquanto a IA acelera tudo, a governança precisa desacelerar o que não pode errar. Diminuir drasticamente a equipe não é o caminho porque a exigência cognitiva tende a ser cada vez mais alta.
- Cultura consciente e realista
A empresa não deve demonizar, mas também não pode romantizar a IA.
Se você trata IA como vilã, o time usa escondido.
Se você trata como solução mágica, o time relaxa.
Decisões altamente qualificadas
Equilíbrio é maturidade. A IA é, sim, uma ferramenta poderosa, mas que exige julgamento humano o tempo todo. É preciso elevar a qualidade das decisões das pessoas ao redor dela.
Outro critério válido é fazer uma boa curadoria de informações: separar sinal de ruído quando em meio ao excesso de dados.
Por fim, mas não menos importante: a capacidade de navegar o imprevisível sem paralisar o time é fundamental para um bom líder.
Porque o fraudador já entendeu como usar IA para escalar. A pergunta é se a liderança já entendeu como governar isso na mesma velocidade.