A corrida por data centers começou. Como todas as “corridas” que já ocorreram no passado, esta deverá proporcionar crescimento, transformar a paisagem econômica e premiar os aventureiros mais resilientes. Ao mesmo tempo, trará desafios e problemas, revelará as próprias inconsistências e causará a ruína de “corredores” menos resistentes.
Estamos falando de um mercado de centenas de bilhões em escala global – uma iniciativa de infraestrutura de inteligência artificial anunciada pelo governo Trump em janeiro de 2025, o Project Stargate, planeja envolver até US$ 500 bilhões em investimentos em data centers e infraestrutura energética ao longo de quatro anos. Para se ter uma ideia, só o J.P. Morgan aportou US$ 9,6 bilhões em dois empréstimos de construção para o campus de Abilene, no Texas.
Os investimentos no Brasil não serão tão expressivos, mas também não serão modestos, como veremos adiante. Porém, antes de embarcar na euforia desenvolvimentista ou no pessimismo apocalíptico, é preciso analisar o panorama com cautela e entender o que essa corrida vai representar tanto para o setor de infraestrutura como para o de energia.
Lição recente
Nos últimos anos, quando o e-commerce começou a tomar maiores proporções, os armazéns logísticos pareciam ser uma mina de ouro a ser explorada. Isso atraiu investidores de todo o tipo, que aportaram recursos para ampliar a infraestrutura e aumentar a capacidade instalada dos centros de distribuição. Nem bem a pandemia tinha se dissipado e veio a constatação inevitável: não era qualquer empreendimento do tipo que dava certo.
Além das questões geográficas, rodoviárias e ferroviárias, havia aspectos políticos e fiscais a serem considerados. Mesmo empreendimentos que seguiram o que havia se consolidado como boas práticas estiveram entre as iniciativas que não deram o resultado esperado. Isso é um desdobramento natural de qualquer boom setorial. Mesmo as premissas que parecem infalíveis em um primeiro momento (“vou ter o único galpão do interior do Oeste do Paraná, tudo que estiver destinado a essa região vai passar por mim”) são confrontadas com a realidade que só se revela quando a novidade atinge maturidade.
Na verdade, esses erros são parte indissociável do processo de maturação. E sim, no caso dos data centers, estamos falando de uma escala impressionante, então certamente veremos alguns “tombos” espetaculares diante das oscilações que esse processo terá ao longo de sua curva de desenvolvimento.
Entraves significativos
A analogia com o exemplo logístico traz suas lições, mas há mais questões que podem ser antecipadas. Ao contrário do que possa parecer, as somas altas envolvidas na corrida dos data centers não significam terreno livre para expansão. Pelo contrário: os gargalos no caminho são tão vultosos quanto as cifras listadas. Só para a construção, é necessário encontrar áreas de cerca de 9 mil metros quadrados que estejam próximas de redes de transmissão de energia e fibra óptica, sem riscos de catástrofes ambientais como terremotos e enchentes, e ser capaz de acomodar questões comunitárias cada vez mais complexas, como audiências públicas e negociação com stakeholders locais para obter licenças de zoneamento, construção e direitos de uso da água.
Vencida essa etapa, um outro horizonte de desafios se apresenta: os custos de conectividade (a fibra óptica tem se mostrado mais eficiente que o cobre na condução de grandes volumes de dados, mas ela custa mais que o dobro), pressão na cadeia de suprimentos (de semicondutores até mão de obra qualificada), disponibilidade de energia, e inflação de insumos. Além disso tudo, há muitas pressões ambientais, dado o alto consumo de energia e de recursos hídricos desse tipo de instalação.
Cinco análises recentes – do J.P. Morgan, da McKinsey & Company, da BloombergNEF (BNEF), do The Wall Street Journal e da seguradora Allianz Commercial – abordaram essas questões de ângulos distintos, e identificaram os principais gargalos. Eles estão em obtenção e manutenção do financiamento, risco de sobreconstrução, previsão de capacidade instalada, gap de conectividade entre chips, aumento dos custos de seguro devido a eles se tornarem infraestrutura crítica, entre outros.
Evidentemente, esses estudos também tratam da questão ambiental, um ponto de constante controvérsia no que diz respeito à construção de novos data centers. Ainda que mais estudos na área precisem ser feitos, negar esse aspecto é contrariar todos os princípios de ESG que as organizações dizem defender.
Estratégia e risco combinados
Feitas essas colocações, cabe recuperar a ideia de que sim, a corrida pelos data centers oferece muitas oportunidades para o setor de energia brasileiro. Esse já é um mercado bastante sólido: utilidade pública tem a menor exposição ao ciclo econômico, e por isso atrai grandes investimentos na Bolsa de Valores – o Índice Utilidade Pública (UTIL B3) teve alta acumulada superior a 63% em 2025, bem acima dos 11% registrados pelo Ibovespa no mesmo período. Embora o setor de Utilities englobe também outras áreas (saneamento, óleo & gás e gestão ambiental), é a energia elétrica que concentra a maior atratividade.
Some-se a isso os projetos já aprovados para instalação de data centers no Rio de Janeiro (RJ) e em Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR) e Uberlândia (MG). Estima-se que, uma vez instalados, eles consumam, somados, a energia equivalente a 16 milhões de domicílios. Estimativas dos responsáveis pelos projetos permitem calcular que esses empreendimentos venham a consumir até 176 GW – cinco vezes mais que o consumo atual. Considerando isso e o acréscimo com as demandas da eletrificação industrial, a demanda máxima por energia elétrica pode aumentar cerca de 26% até 2035, segundo um levantamento da Deloitte realizado no primeiro trimestre de 2026.
Existe, portanto, uma longa jornada à frente, e mapear o seu caminho exige um estudo bastante detalhado para se antecipar às possíveis intempéries, às quais se somam densas questões regulatórias. O desafio é grande, tanto para o setor energético quanto para o de infraestrutura, mas é da superação de grandes desafios que nascem as grandes transformações.