O novo esporte corporativo é descobrir quem escreveu usando inteligência artificial. Quer ver?
A Anthropic decidiu colocar uma espécie de marca d’água nos textos produzidos pelos novos modelos de Claude. Não aparece na tela, não vem escrito “este texto contém IA” no rodapé. A marca é feita para ser detectável por máquinas.
Enquanto isso, o LinkedIn resolveu enfrentar o que já ganhou um nome pouco elegante: AI slop. E o Substack criou um filtro para conteúdo gerado por IA.
Motivos não faltam.
Cenário desfavorável
Um estudo recente da Pangram analisou mais de 1 milhão de publicações em LinkedIn, X, Reddit, Medium e Substack. No LinkedIn, mais de 40% dos textos longos analisados foram classificados como totalmente gerados por IA.
Ou seja, talvez aquele seu colega tenha realmente “refletido profundamente sobre liderança durante uma caminhada ao nascer do sol”, mas existe uma chance razoável de ele ter refletido sentado diante do Claude.
A reação é cada vez mais comum:
Foi IA?
Quanto de IA?
Ele escreveu mesmo?
Mandou melhorar?
Pediu só uma vírgula?
E você? Confesse!
Daqui a pouco precisaremos anexar aos posts uma declaração: “Certifico que pensei pela minha própria cabeça antes de escrever este conteúdo.”
A discussão sobre autenticidade é importante, mas será que usar IA para escrever torna um texto menos autêntico?
Usar ou não usar: eis a questão
Eu mesma uso IA. Uso para pesquisar, testar argumentos, organizar ideias, desafiar raciocínios, cortar excessos, melhorar textos. Só que continuo achando que as ideias precisam ser minhas.
Para mim, existe uma diferença enorme entre usar IA para escrever melhor e usar IA porque você não tem nada para dizer.
Afinal, os textos sem graça e sem profundidade não nasceram com o Claude. Muito antes do ChatGPT já convivíamos com “liderança é sobre pessoas”, “saia da sua zona de conforto”, “o impossível é apenas uma questão de perspectiva” e outras contribuições completamente dispensáveis.
A IA apenas industrializou a produção: agora conseguimos produzir mediocridade em escala, com excelente gramática. Para testar, perguntei ao Claude o que esse cenário representava: “Talvez o futuro não seja uma disputa entre conteúdo humano e conteúdo artificial. Será uma disputa entre conteúdo com pensamento e conteúdo sem pensamento”. Deu pra entender?
E sabe o que é pior? De tanto consumirmos esse tipo de conteúdo, mesmo que a gente escreva “sozinho”, acaba sendo influenciado por fórmulas já ultrapopulares, como “não é sobre x é sobre y”, “o problema não mora aí”, “é justamente essa questão que influencia a percepção”, etc. O algoritmo penetra na nossa mente e contamina tudo.
Selo de excelência?
Claro, um executivo pode escrever sozinho um texto absolutamente genérico. Mas dá para trabalhar com IA e produzir algo profundamente autoral. Isso acontece quando a gente traz experiência, repertório, discordância, dúvida, contexto e uma posição que efetivamente nos pertence. Qual dos dois é mais autêntico?
Essa pergunta fica ainda mais interessante quando começamos a criar mecanismos tecnológicos para identificar a participação da própria tecnologia.
Marcas d’água, detectores, classificadores, denúncias de AI slop. Tudo isso pode ser útil para a transparência.
Mas existe um risco curioso: transformar proveniência em sinônimo de qualidade.
“Foi escrito por humano” não é selo de excelência, assim como “teve participação de IA” não precisa ser atestado de mediocridade.
Aliás, depois de décadas lendo apresentações corporativas, posso assegurar que seres humanos sempre foram perfeitamente capazes de produzir conteúdo artificial, basta não terem atitude ou personalidade.
Quando todo mundo usa os mesmos prompts, pede os mesmos formatos, copia as mesmas estruturas e publica as mesmas sete lições de liderança, acontece algo previsível: todo mundo começa a soar igual.
Quanto mais poderosa fica a inteligência artificial, mais valiosas ficam justamente as coisas que ela não consegue fornecer sozinha: experiência vivida, opinião, repertório, contradição, senso de humor, contexto e coragem para dizer algo que talvez nem todo mundo curta.
Ou seja, a IA não vai “dominar a humanidade”, como muitos temem. Como diz um vídeo de humor que assisti esse mês, é a humanidade que está se entregando à IA e desistindo de pensar.
Então, antes de perguntar “esse texto foi escrito com IA?”, talvez exista uma pergunta bem melhor: “tem alguém aí dentro?”.