Quando a IA reduz tempo, elimina processos e acelera etapas de criação de valor, o que arriscamos perder no caminho? Ativos humanos preciosos como curiosidade, intuição e caráter, garante Sam Jordan, head de Tecnologia e Computação do Future Today Strategy Group (FTSG). A “outra futurista” do FTSG, subiu ao palco da SXSW 2026 para propor às empresas que criem “auditorias de fricção”, capazes de identificar as competências humanas que estão sendo perdidas e recuperá-las.
Para chegar a essa proposta, Sam parte de uma analogia histórica. Nos anos 1960, a proliferação da televisão não foi apenas uma mudança de meio: foi uma fratura nos circuitos invisíveis pelos quais as sociedades constroem confiança, identidade e conhecimento. Ninguém planejou essas rupturas. Elas foram consequências não intencionais de tecnologias que simplesmente evoluíram. O caos daquela década era o sintoma visível de uma reconfiguração estrutural que acontecia por baixo.
No século 21, argumenta, três “pipelines” importantes estão sendo reconfigurados pela tecnologia:
- O pipeline do fazer. Ambientes de simulação permitem testar milhares de configurações antes de construir qualquer coisa no mundo físico. A IA Agêntica vai além: dado um objetivo, o sistema raciocina, planeja e executa, entregando ao humano apenas a decisão final. O que se ganha em velocidade é real. O que se perde é a intuição – aquele senso visceral que o biólogo desenvolve após meses no laboratório, ou que o engenheiro absorve ao construir protótipos com as próprias mãos.
- O pipeline da descoberta. Pesquisadores já constroem organismos vivos que nunca existiram na natureza, com células reorganizadas por IA em configurações que a evolução jamais produziria. A pergunta da Ciência está mudando: não mais “O que a Natureza faz?” mas “O que podemos fazer com a Biologia?”. O risco é a perda da curiosidade: quando o incentivo migra da descoberta para a construção, as anomalias que historicamente mudaram paradigmas viram ruído.
- O pipeline do talento. Líderes sempre foram formados pelo atrito – o erro, a correção, a experiência de errar e aprender. Isso construía não apenas habilidade, mas caráter. Hoje, as tarefas que treinavam juniores estão sendo absorvidas pela IA, que valida o pensamento do usuário 50% mais do que outro ser humano faria. A ironia é perversa: escolhemos o sistema que nos bajula e perdemos o caráter.
A solução, diz ela, não é desacelerar ou abandonar a tecnologia. É mapear o que cada pipeline entregava de graça – intuição, curiosidade, caráter – e reintroduzir esses elementos deliberadamente na cultura corporativa. Em um cenário desse tipo, uma CEO criaria laboratórios de fricção com cenários ambíguos, designaria seniores cuja função é discordar e formaria líderes experientes a partir do desconforto.
Sam Jordan sabe que pipelines antigos não foram projetados para produzir intuição, curiosidade ou caráter. Essas competências nasciam como “acidentes felizes de processos lentos e caros”. A auditoria de fricção para um mundo veloz é o jeito de parar de tratá-los como garantidos – e começar a produzi-los de propósito.