The Shift

A sinalização e o poder por trás do anúncio

Em 12 de junho, às 17h21 de Washington, a Anthropic recebeu do governo americano uma diretiva de controle de exportação que suspendia o acesso ao Fable 5 e ao Mythos 5 por qualquer estrangeiro, dentro ou fora dos Estados Unidos. Segundo o comunicado da própria empresa, o governo acreditava ter tomado conhecimento de um método de burlar as salvaguardas do Fable 5, e a Anthropic discordou de que uma falha estreita justificasse recolher um modelo comercial. Sem meio técnico viável para separar usuários por nacionalidade em tempo real, a empresa fechou o acesso a esses dois modelos para todos os clientes, enquanto o restante do catálogo seguiu disponível. Em 30 de junho, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, assinou a carta que retirava a exigência de licença, e o acesso ao Fable 5 começou a voltar em 1º de julho, dezenove dias depois da ordem.

Uma empresa que dependia dos modelos da Anthropic viveu o episódio como uma interrupção de serviço. O governo americano, porém, fez mais do que tirar um produto do ar por três semanas.

Toda decisão dirigida a um fornecedor de tecnologia carrega dois elementos ao mesmo tempo. O primeiro é a medida em si, que foi anunciada e que pode ser implementada, modificada, cancelada ou esquecida. A restrição por nacionalidade percorreu essas etapas em dezenove dias. O segundo, às vezes mais importante, é a sinalização política, que informa a quem depende daquela cadeia o que o governo está disposto a fazer e por quais meios.

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A medida pode ser desfeita por quem a tomou; já a sinalização é uma flecha lançada. Depois de recebida, retroceder na medida não a devolve o sinal emitido à aljava.

A decisão de junho mostrou o alcance dos dois elementos. O governo americano afetou usuários em outros países por meio de uma empresa sobre a qual exerce autoridade, e a empresa cumpriu a ordem da forma que estava ao seu alcance, o que estendeu o efeito para muito além do público visado. Esse é o uso político da interdependência que os professores Henry Farrell e Abraham Newman descrevem, em que redes concentradas dão ao Estado que abriga seus nós a capacidade de restringir o acesso de terceiros que dependem de organizações sob sua jurisdição.

A flecha foi prontamente recebida. Em 14 de junho, dois dias depois da ordem, Mark Carney disse a jornalistas, segundo a Bloomberg, que a situação era o que acontece com a dependência excessiva de certos modelos e o erro seria aceitá-la sem diversificar. Em 17 de junho, na cúpula do G7, Emmanuel Macron chamou a ordem de alerta e descreveu a reação americana como estritamente nacionalista. Nenhum dos dois líderes esperou a reversão para se pronunciar.

Na política, é possível dar um sinal e depois voltar nele ou nas medidas que o acompanharam. A sinalização, porém, não se desfaz na mesma velocidade nem na mesma proporção que a medida. Mesmo depois que o acesso ao Fable voltou, cada cliente, dentro e fora dos Estados Unidos, passou a saber o que aquele governo pode fazer e com que rapidez a empresa obedece.

Separar a medida do sinal é uma lente útil para examinar os (numerosos) anúncios da presente disputa tecnológica.

Em 21 de janeiro de 2025, no dia seguinte à posse, Donald Trump recebeu na Casa Branca os dirigentes de OpenAI, SoftBank e Oracle para apresentar o projeto Stargate. O comunicado previa US$ 500 bilhões em infraestrutura ao longo de quatro anos, US$ 100 bilhões de aplicação imediata e obras já iniciadas no Texas. Circulou a foto de Sam Altman falando de um púlpito da Casa Branca. A sinalização dizia que a infraestrutura de IA passava a ser prioridade presidencial e que o setor privado teria cobertura política para gastar em escala. O anúncio produziu efeitos antes de qualquer data center entrar em operação, ao despertar o interesse de investidores e de fornecedores de energia. A medida, isto é, os US$ 500 bilhões, dependia de financiamento e de energia, e em março deste ano, OpenAI e Oracle anunciaram que desistiram de expandir a instalação de Abilene, no Texas, de 1,2 GW para 2 GW.

Do outro lado do mundo, o encontro de Xi Jinping com empresários, em 17 de fevereiro, tem a proporção inversa. Ali praticamente não havia medida, visto que nenhuma norma foi editada naquela sala e nenhum valor foi anunciado. A norma só veio dois meses e meio depois, com a lei de promoção da economia privada aprovada em 30 de abril. O que havia era a sinalização, e ela era o produto inteiro. Entre os presentes estavam Jack Ma, do Alibaba, afastado da cena pública desde a suspensão da abertura de capital do Ant Group em 2020, e Liang Wenfeng, da DeepSeek, cujo modelo havia sido lançado quatro semanas antes. Em uma foto, Xi e Liang apertam as mãos. Depois dos anos de atrito entre Pequim e algumas empresas privadas, a cena dizia ao setor privado chinês que a IA seria tratada como prioridade nacional e que seus fundadores voltavam a ser bem-vindos. Uma semana depois, em 24 de fevereiro, o Alibaba anunciou plano de investir mais de 380 bilhões de yuans em nuvem e IA em três anos. O anúncio veio depois da foto (e bem antes da medida).

Os efeitos de um anúncio costumam se mostrar antes de uma norma ser editada ou de uma obra ser concluída. Uma expectativa de apoio público pode estimular investimentos, assim como uma ameaça de restrição pode levar empresas a rever fornecedores.

O analista de risco, o investidor e o empresário precisam identificar qual comportamento pode mudar e por quê. A sinalização política é, então, como dizer que o gato subiu no telhado.

No caso da Anthropic, o caminho entre a determinação e o efeito foi mais curto do que em qualquer um dos dois anúncios de 2025, porque medida e sinalização chegaram praticamente juntas (a Casa Branca havia, pouco tempo antes, alertado a empresa sobre um jailbreak antes da ordem, e a Anthropic não teria corrigido a falha ou retirado o modelo do ar). O recuo, dezenove dias depois, informou o custo político da medida para quem a toma, e, sempre que o custo político é alto, a tendência é retroceder.

Permaneceu válida, no entanto, a demonstração de que o instrumento existe, de que o governo americano está disposto a usá-lo e de que a empresa o executa com a abrangência que entender razoável.

Ela chegou a todos os clientes fora dos Estados Unidos, inclusive aos que não tinham parte na controvérsia e não cogitavam trocar de fornecedor. A reversão, aliás, veio com letra miúda. Na carta de 30 de junho, a Anthropic se comprometeu a trabalhar para detectar riscos de segurança e a coordenar com o governo protocolos e lançamentos do Mythos, do Fable e dos modelos futuros, além de informá-lo sobre atividade maliciosa.

Para empresas em qualquer parte do mundo, a sinalização deveria gerar uma consideração adicional na governança da tecnologia, na gestão de risco de terceiros e, em última instância, nos planos de continuidade de serviço. Uma ferramenta de apoio à redação e um componente integrado a uma operação crítica exigem avaliações de risco diferentes. Diversificar fornecedores sem análise criteriosa pode ter pouco efeito, porque dois deles podem responder à mesma jurisdição ou depender da mesma infraestrutura. Um modelo de pesos abertos executado em ambiente controlado pelo cliente pode reduzir a dependência de uma API externa, mas traz complexidade operacional para mantê-lo, além de possíveis limitações de desempenho e de atualização. A empresa que adapta seus processos a um fornecedor e deixa interoperabilidade para depois converte a economia da padronização no custo de uma migração urgente.

Aposto que, mundo afora, mais medidas relacionadas à corrida pela IA serão revertidas ou canceladas antes de cumprir o que anunciaram do que mantidas como saíram. O empresário que decidir olhando só para as medidas terá razão na maior parte do tempo e estará desprotegido quando errar. Já o empresário que decidir olhando também para a sinalização pagará um pouco mais em redundância e, quem sabe, estará pronto quando a próxima flecha vier na sua direção.